sábado, setembro 12, 2009

Do Gilson alguns problemas

Já todos ouvimos falar do jovem médico em formação no serviço de Cirurgia Torácica que esteve algum tempo em greve de fome encerrado numa sala dentro do Hospital de São João. Conversei este dias um bom bocado sobre este tema com um amigo meu, médico, e esta conversa ajudou-me a ter ideias mais claras sobre o acontecido e o que ainda está a acontecer.
A especialidade de Cirurgia Torácica, de todos conhecida, trata de cirurgias de enorme responsabilidade e de grande risco, necessitando de um grande expertise em situações de coração aberto, clampagem de aorta, bla bla bla, etc. Quem falha nem que seja um pouquinho nestes temas mata o doente nas calmas e sem tempo para exéquias prolongadas: em segundos. O internato de Cirurgia Torácica, ou seja, o tempo de treino necessário para adquirir o título de especialista de, seis anos, é um tempo de enorme sobrecarga de trabalho, horas muitas a mais, stress, pressão, esforço. Neste como noutros internatos médicos a sobrecarga horária aplica-se por conveniência e/ou necessidade do interno, dos doentes, do serviço. Acontece, o sistema vive dela. Assim se aprende também. É assim na Torácica como em Dermatologia. Com a diferença que na Torácica podemos ter que operar quatro-cinco horas de pé e praticamente sem interrupções. É assim no Porto, em Coimbra, em Barcelona, em Londres, em Los Angeles, nas Ilhas Caimão. Um qualquer "flip" mental no meio deste filme mata.
Posto isto, não existe qualquer direito à formação, ao ensino, que se sobreponha ao dever de eximir um doente numa mesa de operações do risco - rapidamente letal - de alguém instável psiquicamente e incapaz de se controlar perder a mão e, digamos, abrir quando devia fechar, apertar quando devia soltar, clampar quando a dica era descamplar.
O resto é um enxame de detalhes, uns mais importantes do que outros, que giram à volta da dignidade de uma pessoa transtornada, o Gilson, a sua parece-me enorme solidão, a alguma/muita inabilidade para um Hospital ou Faculdade ou o que seja lidar com alguém que possivelmente não devia ser sequer licenciado em Medicina.
O meu amigo médico lembra-se de um colega de curso que terminou o curso entre crises de pânico e estudo de testes cedidos pelos colegas de turma. Num ano lectivo nunca foi a nenuma aula, por medo. Tem corrido várias especialidades médicas não terminando nenhumas, de vez em quando despe-se em fontes públicas.
Não me parece ser o caso do Gilson. Obviamente o Gilson não pode prosseguir o internato de Cirurgia Torácica.

Vidé o seu blog: http://www.grevedefomeemdirecto.blogspot.com/

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terça-feira, setembro 01, 2009

Já não há quase e devia haver muito mais!

(...)
""Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!"

de Alexandre O'Neil

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sexta-feira, junho 05, 2009

Seis Meses

Seis meses passaram sobre a morte de um Amigo. Viajando no computador encontrei um primeiro texto escrito uns quinze dias antes daquele que depois aqui coloquei em homenagem a. Ainda eras vivo, ainda não tinha estado contigo - pela última vez. Eu sabia que coisas tinham ficado por dizer. Claro que seis meses depois só podiam ter acontecido duas coisas - a) esquecermo-nos b)ruído de fundo.

Portanto aqui vai a versão "beta" da coisa, com motes repetidos, e voltas, e mais nada. Não interessa. Interessa que morreste e eu lembro-me.

"E agora, quem vai operar a minha mulher, quem vai resolver aqueles pequenos raios cuja interpretação científica não tem nada a ver com a realidade nem vou neste momento dedicar-me a explicar linha por linha e nem são muitas mas, repito, quem vai operar? Hem? Mesa de trabalho exposta que por orgulho natural feminino se quer sempre arrumada assim se vê quem não presta a devida atenção, eu, nunca prestei, nem muito préstimo para tal terei por isso me considero exageradamente com sorte e também de estar vivo e com alargadas perspectivas do mesmo, tu não já que não poderás operar quem nunca te foi sequer apresentada.
Foi há quase vinte anos apanhaste a varicela no tirocínio para marinheiro, tinhas um Clio GT batias o tempo mais rápido para chegar a Condeixa que era onde terminava o futuro, passávamos depois pelos Candeeiros ainda ontem os vi no Google Earth – nunca mais os vi – estão iguais. Tudo isto terminou ali na esquina da Ribeira das Naus quando fomos jurados, tiveste uma discreta companhia à espera, família, namorada, não sei um pequeno postigo sobre o resto teu de que eu nunca soube, perguntavam-me por ti eu dizia “discreto, calado” e depois outras coisas a minha companhia de então sendo C., se fosse preciso também a operarias a ela, porque não, este texto porém não vai por aí. Tinhas um irmão que manobrava um Impreza e coleccionava semáforos fechados nas noites de Lisboa, lembras-te? E tu dizias “o meu irmão é louco.” E olha, fumavas por teimosia, não, ou hábito ou construção muito construída, e bebias moderado-institucionalmente, sabes que ainda hoje tu és o Mr. J&B para mim, justo ou injusto mas com aquele estilo, as nossas partes comuns paradas há 15 anos e no entanto eras família, eras mais do que família, eras um Amigo. E o teu olhar acendia-se com um cigarro, com um J&B, com a piada fina, um torcer de ombros à puta vida, e tinhas um riso pequeno, de puto, e dizias ou “é assim” ou “que se fôda” ou “estive ontem com o...”, a lembrar territórios antigos.
Portanto a doença percebeu que no teu caso tinha que ser manhosa, que no teu caso tinha que ser decidida e ir logo pela jugular ou como quem diz pulmão - trás- cabeça, que é na cabeça onde estamos aí está a tua doença também, rápida a partir do local de origem para subir tão alto pois mais alto não podemos chegar, assim está construido um Homem.
O meu Pai, a minha Mãe e tu, acho, as únicas pessoas a chamarem-me pelo duplo nome que me define, nem eles sabem que irão ficar mais sózinhos já o são aliás bastante, nem vão notar a diferença. Nunca te julguei “louco” como do teu irmão dizias, aliás a tua magreza sempre me pareceu uma busca de um equilíbrio, uma possível solução não um delírio qualquer mas olha, lembro apenas das palavras de um nosso Rei que visto em grandes apertos finalmente se fez grande - não vou enunciar as palavras, tinha algo a ver com a velocidade de um caminho para a morte – não sei se será esta a tua opção, qualquer que seja será obviamente a correcta.

P.S.: aliás, por ex. nunca me chamaste Miguel, ou Alexandre, como muitos, sei lá porquê. Nem imaginas a falta que me vais fazer, quando se tornar definitiva a tua já habitual ausência."

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quinta-feira, abril 30, 2009

Mafalda Santos




É sua a intervenção mais interessante no programa Hospitalidade promovido pelo Hospital de São João no âmbito da comemoração dos seus 50 anos e comissariado por Miguel Von Hafe Perez.
Aqui há uns dias tiraram a cadeira do meio.

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quinta-feira, dezembro 18, 2008

Morreste-me.

Morreste-me! Não consigo deixar de pensar isto, por feia que soe a coisa. A verdade é que uma coisa assim não se faz, e vou-te explicar.
Lembro-me de ti não do Porto mas curiosamente da recruta na Coina, de umas poucas de noites em Lisboa. Eras fino e dúctil e silencioso, de piada esquisita. Chamavas-me por nomes que era como se fôssemos da família, diminutivos como de irmão mais velho, embora por meses o mais velho fôsse eu. Estavas já feito e decidido, fumavas imenso, cultivavas o teu J&B com parcimónia, nada mais sabia de ti. Podias ser um oculto praticante de artes marciais, ou comer bolas de ópio nas horas vagas, ou ainda salvar vidas com uma máscara nocturna e ser herói de banda desenhada - o “Dark Blade” - como referência à tua proverbial magreza. Não sabia se namoravas, sequer o que pensavas disso, por mim era como se as esfaqueasses ao fim de quinze dias. Mas porém, na Ribeira das Naus quando nos despedimos os dois da Marinha tinhas alguém à tua espera que (não) me apresentaste, senti-me então muito honrado. Só agora soube que afinal casaste, que enfim tiveste filhos.
E nestes anos todos assim continuaste, assim continuámos, paralelamente seguindo em silent mode, assumo que gostarias de jogar alguns jogos de vídeo com os teus rapazes, algo que terminasse em “…Avenger!”, por aí, ganhando no final com uma stickada discreta, um golpe de mão que depois acabavas por ensinar, “é assim que se faz”.
Estive contigo há uma semana. Reconheceste-me logo, pareceste contente. Pedi-te desculpa por te acordar – um pouco. Estavas, não estavas. Falei-te dos tempos passados, do teu irmão dentista que contava semáforos vermelhos na noite de Lisboa com um Impreza de dois litros, então era alguma coisa, caramba! Tu contaste-me a tua história recente, a negação, o medo, o medo. E, sabes, custou-me a aceitar o medo que referiste. Não vou explicar porquê. Estavas, não estavas, subitamente começaste a falar de línguas estrangeiras e que já não terias tempo para as aprender, o grego, por exemplo, e outras, não estavas. Morreste quatro dias depois. Antes das línguas estrangeiras disseste-me alguma coisa sobre que “não querias parar de trabalhar”, pois, e agora quem opera as varizes reticulares da minha santa mulher, hã, estúpido, quem? Meu cabrão de merda!
Sabes, no dia a seguir à tua morte, pelas fodidas razões profissionais do costume falei com vários amigos comuns e a verdade é que falávamos mais baixo, mais cal-ma-men-te, como se sabendo que nada daquilo era realmente importante. Que se fodam as varizes, não devias era ter morrido!

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quarta-feira, novembro 12, 2008

Helicopter

"It is recommended that in remote or rural areas helicopter transfer should be considered in order to improve access to treatment."
AcabOU agora mesmo de ler isto um amigo meu médico, vão chamar o presidente do INEM ao Parlamento, ele telefonou-me a comentar que no Parlamento podiam perguntar a esse senhor algumas coisinhas sobre esta história dos helicópteros que estão no Porto e em Lisboa quando deviam estar em Bragança, Faro, Beja...

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domingo, novembro 02, 2008

O Vaticano em dificuldades pede ajuda

Um amigo meu, cuja profissão me dispenso de elucidar, foi recentemente assistir a uma missa na igreja da Lapa. Era dia de solenidade, missa cantada, a ex-professora de instrumento da sua filha tocava, era dia para a criança afogar as saudades.
O meu amigo não sustentou toda a missa, ele não é, digamos, religioso. A missa, com toda a sua solenidade, foi muito bonita. Curiosamente porém, sentiu dentro do templo um peso de afirmação de alguma coisa que, em frequências prévias lhe escapara. Como se uma questão territorial, onde ele não entrava.
À procura da instrumentista teve um encontro surpresa.
"Olá, por aqui?" "Acabo de chegar do Ruanda..." "Aquilo por ´lá está um pouco quente, não?" "Pois sim, o Congo é o coração de África, tudo gira à volta do Congo!" "Pois, John Le Carré, Conrad, o Apocalypse Now..." "Eu só conheço o filme do Coppola mas aquilo ali é cem vezes pior, é uma conjugação de negativismos..." "Hummm..." "Eu falo-lhe disto porque sei que tem um espírito aberto a estas coisas..." "Hummm..." "Eu tenho noventa mil horas de meditação, já estive em todo o lado, Chichen Itza, Ulan Bator, eu sou duma corrente de Taoísmo que, e olhe que não sou um novato, e todos dizem, até 2018 viveremos uma nova época das trevas, eu..." "...tenho que ir!" "Espere, estive em Roma, a maior mesquita do mundo, ein? A maior, em França onze milhões e a uma só voz, agora pergunto-lhe, onde estão as catedrais na Arábia Saudita, eu quero catedrais na Arábia Saudita..." "Pois..." "Porque nasceu tudo em África, este negativismo, eu sou um homem de paz mas também sei ser guerreiro, por isso é que o Vaticano me pediu..."

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segunda-feira, maio 05, 2008

As mamas e a cirurgia das mesmas

Um amigo meu, médico, comentou-me a rir a polémica que estalou sobre a cirurgia preferencial de funcionárias num Hospital da área do Porto no que diz respeito a redução ou aumento mamários. Eu respondi-lhe que o assunto me parecia grave. Ele retorquiu: "Achas mesmo?".
Depois esclareceu que se estavam a misturar alhos com bugalhos. As cirurgias de redução mamária têm indicação preferencialmente médica, as de aumento indicação exclusivamente estética. As 1ªs têm indicações por patologia de coluna, por sobrepeso na estática do tórax, etc. O meu amigo duvida - mas não sabe -que haja lista de espera numerosa para esta cirurgia, cuja indicação não é frequente, acha ele. As cirurgia de aumento mamário são estéticas, e possivelmente não têm cabimento num Hospital público. Portanto a questão não está em saber se havia uma lista de espera para as mesmas mas sim se o seu acontecer prejudicou alguém - pois terão acontecido na falta de algum doente, nua vaga não esperada de bloco, etc. ao que parece.
Mais ele diz que o atendimento preferencial do pessoal de uma instituição - de saúde ou outra - é uma falsa surpresa, pois ele não se lembra de no tempo das famosas e pretéritas filas para o IRS os funcionários das secções de finanças entrarem na fila para pagar ou de um bancário ficar à espera para fazer um depósito. Interessa saber o quanto uma lista de espera que não deve ser grande - a das cirurgias de redução -é/foi prejudicada por estas intercorrências.
Estamos afinal aqui a falar na realidade de duas coisas : (1) um Hospital fazer "favores" aos seus funcionários custa dinheiro; (2) e parece que um facto não demasiado importante que era do conhecimento de "todos" há bastante tempo só agora chegou aos jornais - porquê?
Esse meu amigo lembrou ainda o caso de outro amigo seu - também médico - que foi operado a um tumor vesical exactamente 4 dias após o diagnóstico ecográfico. Denunciável, não?

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quarta-feira, abril 16, 2008

A doença é minha!

"Existe um colonialismo das doenças", refere um amigo meu, que é médico. "És um tipo qualquer, médico, físico, biólogo, uma destas coisas, descobres uma constelação de diferenças, de erros, de alterações do normal e acabas por lhe dar um nome, o teu nome, como se isto fosse a Polinésia e tu o Capitão Cook." Falamos de achados, diferenças, limitações e achaques que o são para quem deles padece, todos os dias, realmente ou através daquela ameaça terrível que é a das situações latentes, vulgo Espada de Dâmocles, etc e tal.
"Porque não atribuir o nome de uma destas terríveis doenças não ao "inventor" da coisa, que se safou saudável da silva e resolveu morrer de uma outra qualquer indisposição mas sim a alguém conhecido que realmente tenha apanhado com a maleita e, de preferência, tenha convivido bem com a mesma? Porque não desaparecer a Doença de Parkinson e aparecer a Doença de Muhammad Ali, ou do Johnny Cash?" O meu amigo é um incréu, por isso omitiu de propósito o pretérito Papa. Mais disse ele - que estas doenças são de um peso enormíssimo nos ombros de quem as tem, de quem as acompanha. Sofrem ao mesmo tempo de uma longa cortina de invisibilidade para a larga maioria que delas não sofre, e portanto as desconhece ou apenas reconhece um rabisco grosseiro de, um esboço errado, uma sombra. "Porque não renomear a doença conforme os bons exemplos de convivência com a mesma, "de bairro para bairro", aqui a Doença da Rita, ali a Doença da... Sandra, por ex.?"
O Dr. James Parkinson descreveu a "sua" doença como "a involuntary tremulous motion, with lessened muscular power, in parts not in action and even when supported; with a propensity to bend the trunk forwards, and to pass from a walking to a running pace: the senses and intellect being uninjured". Os doentes com Parkinson, perdão, com a doença deles teriam tão mais coisas para contar!

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quinta-feira, abril 03, 2008

O pioneiro da psicossomática e outras histórias

Um amigo meu foi visitar um colega de profissão, mais velho, por motivos confusamente profissionais. Foi pedido “veja lá se está tudo bem, ele é um chato, não o aguento mais...”, e assim se procedeu a um domicílio.
Encontrou o senhor em questão sózinho. Após a apresentação a conversa desviou-se rapidamente para memórias e eventos antigos. O homem mais velho estava algo lentificado, não se sabe se pela doença ou por alguma medicação. Aparentemente o homem mais velho preferia estar sózinho. Ultimamente a prática profissional cansava-o imenso. Os raciocínios elaborados pareciam adequados, a informação dada a correcta. Para além de uma longa experiência profissional, algo pioneira inclusivé em algumas áreas, o homem mais velho tinha acumulado experiência em Belas Artes até bastante tarde, incluindo docência. “Tenho este problema na coluna cervical, sabe... o ano passado ao conduzir dei por mim com o automóvel a subir um monte. Como consequência do acidente... fiquei com este trémulo na mão direita mas que eu controlo perfeitamente; eu escrevo, consigo desenhar, consigo pintar...”. Efectivamente de vez em quando olhava para a mão e ela deixava de tremer.
Escrever, desenhar, pintar.
“Sobrevivi já a dois tumores na ***, fiz várias cirurgias... agora estou bem...”.
Tumores, dois.
“Preocupo-me com a minha filha, ela não fez descontos, não vai ter uma reforma como eu, agora é demasiado tarde, penso nisso todas as noites... que idade tem? 42 anos...”. “Ultimamente tenho caído com frequência, e aí a minha mulher pôs-me aqui. Uma equipa excepcional, não tenho nada que dizer... combinei ir embora amanhã e estou muito melhor!”
“Sabe, o meu problema é que amo desmedidamente a minha filha”.
O meu amigo comentou-me ter tido dificuldade em medir a doença de quem tinha pela frente em comparação com a sua, a presente e, sobretudo, a que há-de vir. Não elaborou demasiado nas eventuais sombras presentes, no pequeno delírio que ali estava, na possível fábula, recusou-se aliás a tal. Sentiu pesar-lhe também nos ombros tudo o que não sabe fazer - escrever, desenhar, pintar...
A distância impediu-lhe despedir-se do homem mais velho com um abraço.

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Do choro

Um amigo meu não se lembra da última vez que chorou. Costuma dizer: “Antigamente, quando era criança, chorava muito! Depois secou, para nunca mais!” Sei que é assim, pois nas conversas que tenho com este meu amigo ele nunca mente, o que não é uma qualidade em si, é apenas uma constatação, uma evidência. Diz ele também que já repetidas vezes por ali andou o momento, a humidade periconjuntival, o acenar da hiperventilação, o soluço, a adução dos ombros. Só que nesses momentos, ligeiro, eficaz, o vigia encarregado de lhe secar o olhar logo avança e faz o que tem a fazer. “Fecho é muito os olhos” – diz – “e a muitas coisas!”.
Respondo-lhe que não chorar nunca - é um defeito, e dos grandes, e que fechar os olhos tem apenas duas indicações, o sono e o prazer, sendo esta última opcional pois há quem os prefira ter bem abertos quando.

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sexta-feira, fevereiro 29, 2008

O Sr. Augusto

Talvez seja coincidência mas o meu amigo médico repete dia após dia que a amizade está em crise e, para exemplificar, falou-me de um caso que passo a citar: "Vê lá tu o meu amigo Augusto. Vou-lhe chamar da forma que o trato habitualmente, tendo ele quase idade para ser meu pai: sr. Augusto. Conheci-o quando passei a tratar a sua esposa, portanto minha doente. Homem vindo de África, dos tempos em que Portugal a tarde e más horas ainda teimava em mandar os seus mais aventureiros para o trópico, nem sei bem qual é a sua arte. Às vezes contava-me com evidente orgulho peças e arranjos que inventava para ortopedistas ou equiparados. Um óptimo profissional. Nada pedindo para si, tudo para os demais. Bom prato, boa piada, bom amigo. Boa gente. Está a tentar reformar-se a tempo, antes de começar a arrastar-se pelo trabalho uma sombra do que foi, pois assim há quem queira que venha a ser todo um país. A esposa, talho da mesma cepa, tem estado progressivamente mais doente, mais limitada. Não tenho podido fazer mais do que monitorizar o seu declínio. Têm um único filho. Licenciado em relações internacionais mas quase sempre desempregado, influi muito o ter um déficit visual grave cuja real etiologia desconheço, adquirido já na infância e que lhe limita e muito as hipóteses de emprego. O mimo dos pais, é um homem-criança, condicionado pelo que atrás te contei. E podia ter muita pena dele, mas não tenho. É também afinal um ladrão, tendo já roubado os pais repetidas vezes, a última a semana que passou. O sr. Augusto anda desesperado. E eu com ele também. Pediu-me para marcar uma consulta para o filho, pois precisaria de fazer umas análises. Só se fosse para lhe dar um murro."
O meu amigo médico às vezes infringe aqui ou ali a deontologia.

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quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Os três amigos

São três uns amigos desse meu amigo, médico. E eles também sofrendo da mesma profissão.
Conhece-os há bastante tempo, anos, mais de dez. Acompanhou o seu crescimento, pelo menos profissional. Sobre aquele que mais importa, o deles enquanto gente, vislumbrou luzes, adivinhou sombras, calou receios. Algo mais velho, o meu amigo médico quase encontrou neles como irmãos mais novos, os que nunca teve, a fraternidade indizível que o sangue traz e leva, às vezes. Melhores sempre os irmãos que se adquirem, pensava, resolvendo.
E os anos passaram. Afastaram-se um pouco - bastante até os três amigos, como dedos de uma mão que crescessem demasiado e – plás! – quebrassem para articulação metacarpiana. Talvez o verbo partir fosse o mais adequado. Não pertence a este texto desenhar a geometria espacial neste momento de onde estão as três naves de que falo. O meu amigo médico detecta ainda e sempre sinais de vida - afinal, é a sua especialidade, monitorizar a vida das gentes e demais espécimens. A história das pessoas é como a história de um povo, implica um trabalho de memória, e diário. É combustível para alimentar o adequado julgar do gesto, aferir a direcção do caminho. Lembra-me onde estive e dir-me-ás para onde vou. O meu amigo médico sabe muito pouco destes seus amigos, ele imagina coisas, é conhecido aliás por sofrer de distúrbios da imaginação, linhas de texto que no início prendem mas acabam por cansar quem lê. Por isso acabo a dizer que o meu amigo médico está onde sempre esteve, em si próprio, que é a melhor das casas. E assim espera que as demais gentes estejam, pois os tempos não estão para que se diga de quem nos preocupa: “olha como ele está fora de si!”. É que só nós nos restamos a nós próprios, “en estos tiempos inciertos, en que (sobre)vivir es un arte”.

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quinta-feira, novembro 15, 2007

Rankings

Questionei um amigo meu, médico, sobre uns rankings hospitalares recentemente aparecidos nas notícias. Ele falou-me de "alhos", de "bugalhos" e da respectiva mistura.

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sexta-feira, novembro 02, 2007

Do Sportinguismo

Um amigo meu, médico, tem uma filha que "anda" no ballet. Alternando com a sua esposa na entrega e recolha da filha destas lides, este meu amigo tem com frequência conversas mais ou menos de circunstância com pais e mães de crianças semelhantes à sua: também "andam" no ballet. Com alguns desses pais/mães já encetou até algum grau de amizade. Um destes dias uma destas conversas teve foros de revelação. Julgava-se este meu amigo um sportinguista fervoroso. Descobriu não o ser.

Nestas conversas, guiadas pelo acaso e o curto tempo disponível, ainda mais porque já é horário de inverno e a recolha já se faz de noite, os temas saltam de uma forma imprevisível, tendo as mais das vezes morte rápida. Assim foi os hábitos de televisão dos presentes. O meu amigo referiu a sua frequência preferencial do Cabo, e dos canais Panda, Nickelodeon e "Sporting", ou seja, via o que a filha via, forma de estar com em regime de tempos familiares apertado, mais o tempo que o seu vício de sportinguista lhe pedia, dos poucos vícios que se permitia aliás, mais ainda, com a comissão extra de se permitir um sofá cómodo e prazenteiro para a execução a preceito do "viciozinho".

"Ah, o senhor é sportinguista!" Quem assim cortava era um homem para o baixo e para o forte, fato escuro com um risco fino e colete, isto tudo a rodear uma cara de rapaz a quem tinham oferecido um rebuçado. "Eu sou sócio dos antigos do Sporting aqui no norte. As minhas duas filhas são sócias desde que nasceram. Eu e a minha esposa vamos às Assembleias Gerais votar. Estivémos na inauguração do Alvalade XXI. Eu..." O meu amigo, aturdido com tanta fidelidade e sociedade respondeu com considerações sobre a equipa, o Miguel Veloso, o João Moutinho, que este lugar, aquele sistema, jogando no prazer de simular o entendimento do que não é mais do que um jogo, portanto com tácticas, com estratégias, já lá dizia o Gabriel Alves... Mas o interlocutor não ia muito por aí, via-se pouco afoito nessas considerações, a dele era a tribo, o sportinguismo quase como entidade teórica surreal. Separados pelo aparecimento em tropel das bailarinas/crianças/filhas, juraram-se sportinguismo eterno e cada um marchou para o seu lado. O meu amigo, que nem sócio é do seu clube do coração, carregava porém um pesado sentimento de culpa, ou melhor, de "defeito"...

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sábado, outubro 13, 2007

Óscar Lopes 90 anos


Já foi há anos, um amigo meu, que é médico, fazia urgência num hospital grande do Grande Porto. Um seu amigo fazia urgência com ele. Era assim naqueles tempos, havia amigos no serviço de urgência daquele hospital.
De repente um vem dizer ao outro: “Olha, tenho aqui o Óscar Lopes! Está a vir de Otorrino!” Não interessa a questão médica, nem interessa uma então muito grande dúvida sobre uma decisão terapêutica que lhes pareceu quase homicídio premeditado. Como crianças lutaram para ver quem melhor servia o Mestre para dar-lhe alta. Porque de um Mestre se tratava, embora pequenino, e já então deslocado para uma cadeira de rodas. Óscar Lopes, vivo hoje ainda, 90 anos de idade, é o discreto Mestre dos Mestres. Ou se calhar o único Mestre, pois dos seus discípulos a altura nunca lhe chegou a ultrapassar o calcâneo revestido. “Criou” a Literatura Portuguesa, com António José Saraiva.
Vidé as palavras de Baptista-Bastos.

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segunda-feira, julho 09, 2007

Na cripta



Um amigo meu, médico, tem a filha, de 8 anos, a aprender violoncelo.


Tem a miúda como professora uma jovem caucasiana, alta e esguia, ex-aluna da ESMAE e instrumentista da orquestra da mesma e da Orquestra Clássica de Espinho, senhora de um virtuosismo assinalável.


Ao ser professora pelo 1º ano na escola onde a filha do meu amigo anda, a Escola de Artes das 7 Bicas, agregada à paróquia da Sra da Hora, por tradição teve a moça de apresentar um número musical no espectáculo de fim-de-ano, aconteceu este evento a 7/7.


Por engano estava no programa como o Prelúdio em Ré mas não, era o Prelúdio em Sol M. Subiu ao palco, buscou a cadeira, fixou o espigão, colocou-se mais o violoncelo, e despachou a coisa, como já vimos, em pouco mais de dois minutos. Mais Rostropovitch que Casals, não deixou de ser um momento de cortar o tempo, pese as más condições acústicas da sala - a cripta da Paroquial.


É o violoncelo um instrumento de difícil domínio, e físico. E a relação é portanto física, como entre um animal e o seu dono. Lembra aqueles pares famosos de cavalo e cavaleiro, sendo que aqui nem existe a possibilidade de falar ao ouvido. Parte-se então directamente para a corrida. Por isso espantou esta animalidade comandada por uma jovem. Surpreendeu. Por isso no século XIX era o violoncelo um instrumento masculino. A professora da filha do meu amigo foi o momento do espectáculo. Porque subitamente um animal no palco da cripta de uma Paroquial não se espera. Ou dois.


No fim voltou o instrumento para uma caixa prateada como de metal, um cofre, como uma prisão para tão precioso e difícil animal doméstico.

E foi-se ela embora com o seu animal às costas, apanhar o metro para casa, não foi nada, não disse mas assim fez. Conversará com ele depois em casa sobre um pequeno momento de rebelião naquela passagem onde quase se falhou, o cenho franzido num instante. E castigá-lo-á com novo treino, nova corrida, e no fim dar-lhe-á um beijo, ou talvez não.

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quarta-feira, junho 27, 2007

Feliz Aniversário


Uma amiga minha acabou de ter uma filha. Que a bem dizer não queria. É feliz. Está bem. A filha é um pacote de doces feito um só. Vai correr tudo bem.

Ontem um amigo meu, médico, foi visitar um doente ao internamento de Psiquiatria do seu Hospital. Cruzou-se com um conhecido do Secundário, que ali estava internado. Acabara de ter “alta disciplinar”. Esse rapaz terá filhos dois. E é casado – há bastantes anos, com uma outra amiga do secundário. Boa gente, muito boa gente. Informando-se sobre a “alta disciplinar”, reconheceu afinal como brincadeiras liceais velhas de vinte e cinco anos, podiam ter perguntado, tanto aparato para o mesmo, também então no secundário já aconteciam algumas “faltas disciplinares”. Como serão os filhos, como estará este casamento bem mais velho do que os dois que o meu amigo já leva em serviço? Parva, esta curiosidade, e com algum atraso. Voltarás a vê-lo, ou não, daqui a dez anos, por ex., qual dos dois o internado, não sei.

Este meu amigo médico hoje devia celebrar várias coisas, umas não pode (está a trabalhar), outras não pode (pelo anacrónico da situação em causa, e da qual se separou vai para uns anos). Curiosa esta associação de datas. E tem uma filha com quem poderia fazer uma celebração, que não a outra. Ela, a filha, está em viagem de autocarro até ao Zoo de Lisboa, identificação ao pescoço, 5 euros na carteira, para os gelados.

Vivemos rodeados por filhos-da-puta, sendo que o maior deles é o “acaso”. Razão tinha o O’Neill.

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sábado, maio 05, 2007

Justo al lado de Barajas

Um amigo meu, que é médico, foi convidado a ir a uma reunião científica, em Madrid. Descobriu nessa reunião que Madrid fica afinal a 500m de Barajas, sob a forma de um hediondo hotel, "o maior da europa".
O meu amigo exultou de alegria, dado que o seu exclusivo objectivo era a ciência e nao mais.
De qualquer forma, parece que há um Corte Inglés a uns 2 kms, e ele está a pensar no caso.

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sábado, abril 21, 2007

Suficientemente Esperto

Um amigo meu, que é médico - Internista - contou-me uma história engraçada, que já aconteceu há algum tempo.
Estava internado em Cuidados Intensivos um Neurocirurgião famoso, já jubilado. Em conversa sobre um filho do mesmo, comentou um familiar: "O pai queria que ele também fosse Neurocirurgião mas, coitado, acabou Internista, não era suficientemente esperto."

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