quinta-feira, setembro 03, 2009

Dos irmãos

“Eu conheço-o de algum lado” “Não se lembra?” “Eu estive internado no Magalhães de Lemos, no Conde de Ferreira, na Psiquiatria – sabe, eu sou irmão de...” Ele era irmão de. Eu não tenho irmãos. Ele viu-me, sim mas, num internamento psiquiátrico – que vês? E que reténs? Qual a “memória futura”? Aí começou a formar-se uma segunda hipótese, menos racional mas estava ali, crescia, que podia eu fazer. Seria este reconhecimento através da irmã? Seria possível que, mais ainda estando eu a ser interpelado por um homem considerado não no seu perfeito juízo, que a sua mente, literalmente descontrolada ou seja, capaz de coisas que em outras pessoas não teriam cabimento – cabem, não cabem, porque várias portas estão fechadas, cimentadas, coisas como alucinações, vozes, ordens, transmissão do pensamento, hummm... Porque sempre teremos que assumir que estas coisas não acontecem? Porque vamos nós os pobres normais fazer tímidas investigações em impostores e fraudulentos quando ao nosso lado – “Não a conhece?” - à nossa frente pode estar um homem que recebeu informação privilegiada da irmã sobre mim sem o escrever de uma letra, sem o mover de lábios... ok, não privilegiada mas mesmo assim...
Eu não tenho irmãos. Não entendo, não leio, não assumo o reconhecimento que pode existir entre irmãos. A minha mãe tem uma irmã que só lhe deu problemas, pessoais, financeiros, de saúde. Apercebo-me mesmo assim da pena que tem da ausência de um contacto actual, nem uma chamada telefónica. De vez em quando põe-se a falar e explora lembranças de uma ninez onde as duas eram felizes, como depois não aconteceu. Essa sua irmã, minha tia, parece-me a mim ser apenas uma muito má pessoa, sem mais. O meu pai tem irmãos muitos. Com trajectos vários, uns mais acertados do que outros, Homens todos, a única irmã já morreu, a mais velha, morreu portanto solteira. Com excepção do mais novo hoje um septuagenário mas ainda visto como o rapaz que “perdeu a cabeça” e o respeito pelos irmãos em várias manobras de má espécie, estes homens quando se encontram pouco falam, usando aquelas curtas frases de reconhecimento e penetração, como se já estivesse tudo dito há anos. São como penedos num mesmo monte, a olhar-se há milénios. São irmãos.
Não percebo.

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segunda-feira, janeiro 12, 2009

"We ask the international community for more time..."


Oh, Israel, Israel, ínvios e difíceis são estes caminhos agora trilhados! E porém a curta memória dos homens esquece que já foste exemplo de país novo e diferente, a juventude viajava para trabalhar nos teus kibbutz, terra ganha em guerra mais ou menos limpa e sangrenta de exército contra exército, assim estava escrito, 48 e depois. O teu sonho perdeu-se, vê como a palavra “colonato” não rima com “kibbutz”, embora se consiga ver no Google Earth, nos Microsoft Maps – são aquelas zonas arrumadinhas e ajardinadas pela Cisjordânia fora…
Sim, Israel eu li – há muitos anos, é certo - o Êxodus de Leon Uris, depois deixei de o ler e de o considerar mas sei que a tua história não começou em 1948 mas muito antes, os judeus não foram transplantados pela Europa para ali, decidiram por eles ir à procura da sua terra e foram indo, comprando, lutando, comerciando, (também roubando, também expulsando, eles que tinham sido expulsos do mundo - crime sob a forma de tentativa) em 1948 já havia centenas de milhares de judeus na Palestina, quase todos de extracção europeia, os sobreviventes, exactamente, de algo que tinha acontecido e para o qual ainda não se decidiu o nome definitivo.
Os anos passaram, os inimigos são agora adolescentes barbados com fisgas ou jovens moças suicidas, são rockets lançados a partir de túneis escavados sob hospitais, ao lado de escolas, em mesquitas. A guerra de 67, chamada dos Seis Dias porque isso durou e não mais, dura há 40 anos, pois o mapa em que naufragamos nela foi desenhado. Entretanto, Israel, cresceste. Foste ganhando judeus e judeus. Onde metê-los, esta nova gente menos secular, crentes tardios num Eretz Israel e num desígnio bíblico que, para os pais da nação era um património cultural único e imperdoável mas não uma ordem divina real. Se o palestiniano é a tua imagem negativa ao espelho e mais não consegue ser – até porque não o deixas existir - tu, novo Israel, és cada vez mais a imagem cada vez menos positiva deste lado do espelho. E cada vez mais só te sentes bem em diálogo com os tais extremistas, partilhando até algum que outro raciocínio. Por isso a tua política já não é o que era, o “trabalhismo”de uma Golda Meir ou de um Rabin, herança paradoxal dos “colonizadores” ingleses, cedeu lugar a um Likud colonizador e perpetuador do pesadelo cisjordano – e invasor do Líbano, donde metastizou Sharon e o actual Kadima, “centrão” de interesses rodeado pelos partidos religiosos dos colonos. Para o mês eleições que serão ganhas por Netanyahu, um Santana Lopes armado. Cada vez mais judeus foste portanto importando de todo o mundo já não como um projecto único de país mas sim pela ameaça demográfica palestiniana, e para alimentar, afinal aí como aqui o interesse de construtores especuladores de novas casas no deserto em condomínio blindado, eis porque tantos governantes teus têm ultimamente tido problemas com a justiça por corrupção. Os palestinianos com menos de 40 anos, portanto a imensa maioria, é como se não sentissem como natural um direito à existência tal a dificuldade que frequentemente sentiram para atravessar uma rua, pegar no emprego, comprar dois litros de leite. Ao fim de quarenta anos acabamos por acreditar no Deus mais incrível no mais extremo das suas promessas, e vestimos o mais improvável dos coletes, nem que seja o último. A culpa do Hamas existir não é da Fatah, é tua. A corrupção da Fatah levaria à criação de outros partidos, de outras correntes, seculares também, e a Palestina sempre teve gente para isso, acredita, a Cisjordânia em tempos que já lá vão era tão secular como Tel Aviv. A faixa de Gaza é uma invenção tua também, com os seus túneis de contrabando por onde passavam armas – e a comida e os medicamentos e as gentes. Aquelas dificuldades que eu refiro acima, frequentes mas não sistemáticas na Cisjordânia fizeram-se perétuas em Gaza. Saíste de Gaza unilateralmente apenas porque perdias mais do que ganhavas em lá ficar, pareceu-te. As terras e a água estão na Cisjordânia, portanto havia que concentrar forças. Gaza tem o nome de Faixa de mas é realmente como uma prisão, a maior prisão que existe no mundo. Tem mil vezes mais presos que Guantanamo, ora pensa. E a democracia dificilmente cresce numa prisão.

Este filme eu já vi, onde se procura vencer a encarnação do mal, o Hamas – e até aqui estamos todos de acordo – com uma ultrapassagem pela “direita”, ainda mais brutal, ainda mais violenta, ainda mais terrífica do que o próprio mal encarnado nos tipos das barbas, os extremistas islâmicos. No fim, quando a poeira assentar, Israel pára, vencedor, desafiante e dirá: “ganhei!” “mas não se esqueçam, o bom continuo a ser eu!” Claro que fica por resolver o que fazer com o milhão de habitantes de Gaza já que pelo andar da carruagem Israel só conseguirá matar 0,2-0,3% deles e ferir até 1-2%. Isto aproximadamente.

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quinta-feira, dezembro 18, 2008

Morreste-me.

Morreste-me! Não consigo deixar de pensar isto, por feia que soe a coisa. A verdade é que uma coisa assim não se faz, e vou-te explicar.
Lembro-me de ti não do Porto mas curiosamente da recruta na Coina, de umas poucas de noites em Lisboa. Eras fino e dúctil e silencioso, de piada esquisita. Chamavas-me por nomes que era como se fôssemos da família, diminutivos como de irmão mais velho, embora por meses o mais velho fôsse eu. Estavas já feito e decidido, fumavas imenso, cultivavas o teu J&B com parcimónia, nada mais sabia de ti. Podias ser um oculto praticante de artes marciais, ou comer bolas de ópio nas horas vagas, ou ainda salvar vidas com uma máscara nocturna e ser herói de banda desenhada - o “Dark Blade” - como referência à tua proverbial magreza. Não sabia se namoravas, sequer o que pensavas disso, por mim era como se as esfaqueasses ao fim de quinze dias. Mas porém, na Ribeira das Naus quando nos despedimos os dois da Marinha tinhas alguém à tua espera que (não) me apresentaste, senti-me então muito honrado. Só agora soube que afinal casaste, que enfim tiveste filhos.
E nestes anos todos assim continuaste, assim continuámos, paralelamente seguindo em silent mode, assumo que gostarias de jogar alguns jogos de vídeo com os teus rapazes, algo que terminasse em “…Avenger!”, por aí, ganhando no final com uma stickada discreta, um golpe de mão que depois acabavas por ensinar, “é assim que se faz”.
Estive contigo há uma semana. Reconheceste-me logo, pareceste contente. Pedi-te desculpa por te acordar – um pouco. Estavas, não estavas. Falei-te dos tempos passados, do teu irmão dentista que contava semáforos vermelhos na noite de Lisboa com um Impreza de dois litros, então era alguma coisa, caramba! Tu contaste-me a tua história recente, a negação, o medo, o medo. E, sabes, custou-me a aceitar o medo que referiste. Não vou explicar porquê. Estavas, não estavas, subitamente começaste a falar de línguas estrangeiras e que já não terias tempo para as aprender, o grego, por exemplo, e outras, não estavas. Morreste quatro dias depois. Antes das línguas estrangeiras disseste-me alguma coisa sobre que “não querias parar de trabalhar”, pois, e agora quem opera as varizes reticulares da minha santa mulher, hã, estúpido, quem? Meu cabrão de merda!
Sabes, no dia a seguir à tua morte, pelas fodidas razões profissionais do costume falei com vários amigos comuns e a verdade é que falávamos mais baixo, mais cal-ma-men-te, como se sabendo que nada daquilo era realmente importante. Que se fodam as varizes, não devias era ter morrido!

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quinta-feira, dezembro 11, 2008

O padre Inácio e outras coincidências

O meu pai parece-se bastante com o José Saramago. Diz porém quem me quer que o meu pai é bem mais simpático. Acontece-lhe rever no meu pai coisas que em mim lhe agradam. Mais a discrição, a modéstia, o silencioso empenho que sempre se admira em alguém e mais num velho. A obra do meu pai, pelo menos aquela que eu lhe conheço, aproxima-se da de José Saramago em qualidade mas parece-me ser bem mais original. Pela discrição, pela modéstia, pelo silencioso empenho que agora também eu lhe reconheço e que afinal sempre lá esteve. Escuso de esclarecer que uso a palavra obra num sentido bastante amplo: o que foi feito.
Curiosamente e há bem pouco tempo fui encontrar outro estranho parentesco entre o meu pai e um escritor, este já falecido. Estou-me a referir a Luis Pacheco. Num dos meus almoços “de trabalho” num centro comercial de alguns conhecido senti-me obrigado a adquirir alguma coisa para ler enquanto – é-me difícil almoçar sózinho sem leitura ocupativa. Comprei em mini-feira do livro que ali estava um volume de entrevistas do editor e escritor Luis Pacheco. As entrevistas, sujeitas que são à curiosidade mórbida que este personagem atraiu e atrai, acabam por se repetir um pouco. Há ali história e histórias, ambas boas. Que escrevia bem o senhor também eu sei, que já o li. Porque publicou pouco torna-se mais óbvio. Ora o que o traz para aqui é a utilização da expressão exclamativa “os-colhões-do-padre-Inácio”, já não sei a propósito de que. Assim também se exprimia o meu pai em momento de mais verbo, preso e encoleirado por um emprego filho-da-puta, ele então, como sabeis - eu, nem pensar. Mais selecto porém, curso técnico da Escola Industrial, o meu pai dizia “tomates”... Por outro lado, à pergunta balanço-de-uma-vida respondeu Pacheco que “foi como foi”, entre uns impropérios. Lembro-me bem de um dia ter invectivado o meu pai por alguma questão pretérita constitutiva sobre casa, família, tidos e acontecidos – a que ele respondeu: “olha, foi como foi!” Nestas duas vidas, a do meu pai e a do Luiz Pacheco, pouco menos que opostas mas ambas feitas por gente crescida e de barba rija, obrigada a "ser" e portanto sendo muita coisa, apenas posso sublinhar estes muito discretos paralelismos. Sendo eu o paralelismo outro que resta.
Resto eu, é isso.

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quarta-feira, novembro 26, 2008

Base

Recebi recentemente um mail (não por engano, melhor seria...) onde by the way era definido o kit básico de maquilhagem feminina como sendo: "creme hidratante, base, sombras, rímel, lápis, baton e blush".
Como "utente" venho aqui referir a minha preferência pela sub-maquilhagem, e passo a explicar dado a dado.
Primeiro: um creme hidratante não pertence a uma maquilhagem, pertence às noções que também serão básicas de cuidado com o corpo. Uma pele se seca precisa de ser hidratada e pronto! Uma alternativa é a hidratação à base de língua. Segundo: a base, ou como uma amiga minha dizia "o estuque", serve para "aperfeiçoar", "arredondar", "idealizar" a pele de uma face onde se assume que já passaram mais uns quantos verões do que o desejado pela possuidora da mesma (face). As irregularidades, as rugas, as discromias, que fazer com elas? A base é, foi-me dito, fundamental onde por exemplo se compete profissionalmente com a data de nascimento afixada num cartão dia-a-dia. A base é afinal uma base de trabalho. Lamento, lamento, não discuto. Aceito o terrível uso profissional da mesma. Estranharia a sua presença na intimidade, e portanto consideraria a sua detecção uma má base... de diálogo. O tempo é uma vantagem que não se pode nem deve oculatr: quer apenas dizer que estou aqui mas não esquecer que antes já estive noutros lados de outros por ex. leitos. Terceiro: as sombras. Aqui perco-me nos comentários. Para que raio serve esta merda? Que desperdício de uma palavra! Quarto: o rímel. Tenho ideia de ser algo que se acumula nas pestanas. Para quê? E isso não vai atingir níveis tóxicos tecidulares e provocar a médio-prazo uma hecatombe levando à extinção natural do muro arbóreo que naturalmente deve guardar o rio dos olhos? Quinto: lápis. Para aprofundar os olhos. Quando esta característica deve existir em moderadas quantidades e variando ao longo dos dias. Os olhos podem - nem sempre conseguem, mas eis mais um dado a favor de alguma transparência... - tornar-se mais superficiais ou ganhar profundezas em segundos, eu vi, as pernas aí tremeram, sem lápis, sem uma palavra, sem texto decorado. O lápis servirá para sublinhar pelo próprio autor uma frase ou um capítulo que se queria realçar perante, eis mais uma desonestidade. O baton, que é o item seis. Concedo que é este adereço item incontornável nestas lides. Tenho um catálogo completo imagiológico de batons mal escolhidos. Outra: uma coisa que definirá uns lábios se fôr para lá chegar é o seu sabor, nascido da transição que o é entre a pele e uma mucosa, e mais não afirmo. Finos ou cheios, acompanham no seu desenho uma maneira de ser mas insisto, prová-los implica alguma nudez, que um baton habitualmente não é. Em situações emergentes vemo-nos portanto obrigados primeiro a comer o dito cujo e só depois a provar... o que pode dificultar escolhas, opções. Finalmente o blush, o número sete. Eu sei que andar a beliscar as maçãs do rosto (lembram-se deste chamar em desuso?)é até algo doloroso, mas também sei que a uniformidade da cor implica obrigatoriamente a linha isoeléctrica no que diz respeito aos estados de alma. Eu sei, o sexo não tem alma, dizem. Ou terá?
Dizem que a mulher é artifício. Eu quero (para mim) que a mulher seja sobretudo fogo.

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sábado, outubro 04, 2008

1+1

Eis o problema: tu e eu somos muito parecidos. Aliás, todos dizem o mesmo - parecemo-nos muito. E agora não queres crescer. Olha, eu também nunca fiz grande questão disso!

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quarta-feira, maio 28, 2008

2008

Há casas daninhas, pequenas ou grandes, há casas que matam. Se são hospitais matam muito mais. Com o problema de serem grandes. E se neles obram grandes pessoas a ampliar as asas do monstro, a acrescentar escamas à serpente, então o problema adensa-se, o dano é maior e o problema não se restringe a barulhos numa qualquer canalização. Um hospital é uma casa demasiado grande para não ser a casa de ninguém. Por isso e assim estando, todos os dias vividos nesse hospital são como se o mesmo se abatesse pessoalmente sobre cada um dos seus habitantes. Uma e outra vez. Ferindo e ferindo. Até que, de vez em quando, alguém morre ou fica gravemente ferido. A última lesão raramente apontando para o culpado maior, a constelação de paredes e tectos e pesadas portas com código que dá pelo nome que atrás disse. E o que está dito está dito.

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quarta-feira, março 05, 2008

Manifestação a favor de


Longe ia o tempo em que um governo em Portugal convocava uma manifestação de apoio. Mais ainda quando este tipo de comportamento, nos anos que correm, se pode associar com linhas de pensamento mais usuais em outros países, outras latitudes, outras vigilâncias. Mas não. Fechada a remodelação, vamos ter talvez a 1ª manifestação de apoio ao governo da Nação deste século, acho. E tudo porque os professores isto, os professores assado.
A minha filha estuda o 4º ano numa escola que pertence aos 13% das escolas que ainda têm horário dito “não-normal”, isto é, só aulas de tarde. Isto permite-lhe estudar e trabalhar os deveres num dedicado ATL de manhã, excepto uma vez semana, quando tem aulas de instrumento musical. Depois das aulas, que acabam agradecidamente tarde, tem a miúda ainda ballet ou karaté, alternando. É esta criança (e seus pais) uma vendida à iniciativa privada? Não: o ballet é da paróquia, o karaté acontece nas instalações doutra escola pública. Com o horário dito “normal” não havia ATL para ninguém, a aula de instrumento teria que rodar para onde o resto das aulas de música já estão, o fim-de-semana. Sem ATL o apoio escolar ficaria entregue à escola pública (mais do mesmo) ou aos pais. Idem a remodelação das assistências – agora vais ao ballet, agora vais ao karaté. Um edifício cuidadosamente construído – o dia-a-dia da minha filha, destruído porque a Sra. Ministra não está de acordo.
A decisão dos horários, as aulas de substituição, o ataque ao ensino musical supletivo, o fecho massivo de jardins de infância e ATL’s, etc., têm um fundo comum: pretendem poupar dinheiro. A reforma das carreiras e da gestão também, e não só: a ideia é domesticar uma área profissional ainda com alguma capacidade (e tradição) reivindicativa, e que também acontece ser quem ensina as futuras gerações. Teremos aqui o objectivo de domesticar "o molde"? O aumento das horas na escola tem qualidades mas também tem defeitos, ao minimizar na criança a diversidade de estímulos e situações com as quais ela se vai defrontar.
Ninguém respeita mais o professorado do que eu. Um amigo meu, médico, costuma contar a anedota de que entrou para a Faculdade de Medicina porque não queria ser professor e achou que médico devia ser mais fácil. Diz, sinal dos tempos, Vital Moreira que as reformas das regulamentações profissionais não podem ser feitas com os profissionais interessados. Escreveu-o ontem. Vindo de quem vem, pode-se falar de mais uma vítima da “longa marcha”. Não podia discordar mais. Por uma questão de respeito, de cultura democrática, de coragem que deve estar implícita a quem governa (a mais difícil das coragens, a do diálogo). Claro que se pode reformar as carreiras, claro que uma avaliação é necessária. A reforma da gestão escolar talvez seja necessária também, não sei, nunca reparei. Mas nenhuma reforma deve ser feita contra os profissionais interessados ou pelo menos sem uma tentativa de diálogo coerente e um explicitar adequado, público, do que se quer. Com respostas às críticas que não sejam “frentistas”, dicotómicas, maniqueístas. Queria só repetir que ao falar de “cultura democrática” acima não me enganei. Trata-se do mais frágil dos ecossistemas ainda vivos em Portugal, mas em erosão acentuada. Talvez por mais este projecto PIN recentemente aprovado.

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sábado, dezembro 01, 2007

Do Iluminismo


Longe de mim usurpar o papel de historiadores que, recuando na análise dos tempos buscam sedimentar pistas para os tempos que correm, os tempos que virão.
Os tempos presentes, porém, lembram-se repetidamente anos, décadas de um século, o XVIII, onde à opulência de tempos e convenções se veio sobrepor as luzes de alguns filósofos e enciclopedistas, e depois a revolução, e depois o terror.
Hoje as luzes estão nas vozes que semanalmente balizam televisivamente o que pensar, ler, decidir. E as luzes estão ainda mais nos gabinetes onde diariamente se decide para onde vamos. Os seus Watts são potentíssimos, ultrapassam em muito o farol da Boa Nova que diariamente me recebe em casa. Iluminam longe, e por fora e por dentro das cabeças e dos corações. Ou assim pretendem. E, uma luz, como escrutiná-la? Como sufragá-la? Como reprová-la, se eventualmente queimar? O tempo das luzes não foi o mais democrático dos tempos, com a excepção atenta da constituição americana. Os iluministas tinham porém uma ideia de tempo, de rio que flui, de progresso de uma sociedade que hoje não há. Vive-se hoje agora. As luzes instituídas o que buscam é apenas rodear-se de jogos de espelhos que as amplifiquem sem mais, numa ilusão de uma grandeza inexistente. E buscam perpetuar-se tentando iludir o sufrágio, o escrutínio, aquele sistema que, acreditamos, ainda será o menos mau dos sistemas, até ver. Estas luzes são falsas, e nada acescentam. Está este rio parado.

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sexta-feira, agosto 17, 2007

Para Não Falar

Ler. Era eu bem pequeno e lia, lia. E uma história houve que ficou bem mais do que as outras. É um conto escrito por uma escritora catalã de lingua castelhana, Ana Maria Matute. Primeira mulher a entrar para a Real Academia, figura controversa não suficientemente antifranquista para ser consensual, e nada catalanista. Escritora de muita coisa, incluindo muitos contos infantis.
E um deles chamava-se o Gafanhoto de Ouro. Era uma vez uma criança, Yungo, que vivia meio abandonado de todos numa aldeia. Porquê? Yungo era mudo. Dizia a sua tia que lhe teriam roubado a voz ao nascer. Por isso não fora à escola, e ninguém lhe ligava. Yungo era órfão de pai e mãe. Um dia, ele salva um gafanhoto de ser torturado por uns rapazes cruéis e descobre que esse gafanhoto fala, e tanto fala que se oferece para ser "a sua voz". Yungo tinha como únicas posses umas botas para andar na lama dos caminhos, e uma guitarra que ele tocava como ninguém. É aqui que, com o seu gafanhoto decide correr mundo à procura de um “País Maravilhoso”, uma ilha que ele tinha desenhado com as mais lindas cores, e onde encontraria a sua voz, bem como os seus pais. A longa viagem de procura é cheia de peripécias, e Yungo aprende a contragosto que os homens utilizam as palavras bem mais para o mal do que para o bem, e que elas as mais das vezes são ora como pedras atiradas à cara do outro, ora bolas de sabão que nada interessam. Como era de esperar, no fim de vários episódios o gafanhoto confessa ser ele a voz roubada a Yungo era ele um bebé acabado de nascer e diz que, se Yungo o matar, recuperará a sua voz. É nesse momento que o delicado mapa do “País Maravilhoso” como que ganha vida e se solta das mãos do rapaz e voa, voa, voa. Yungo, mudo ainda ao não conseguir matar o amigo, corre que nem um louco e ao apanhar o mapa desenhado com tanta devoção levanta os pés do chão para nunca mais. E voa em direcção a esse país fantástico, “onde falar não é preciso porque todas as palavras já foram ditas”.
De tudo o que já foi lido é ainda esta a minha frase preferida, como que um lema, algo ainda e sempre por atingir...

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segunda-feira, julho 30, 2007

Kovadloff e o estado do Mundo

Circula na Internet uma história de Santiago Kovadloff onde ele, querendo mostrar ao filho o que é o mar, o leva ao Sul (lembro estarmos na Argentina). O filho, extasiado perante a imensidão descoberta pede: “Pai, ajuda-me a ver!”
Poeta, filósofo, escritor para crianças e colunista no La Nación de Buenos Aires, participou em 2006 no ciclo de conferências “o estado do Mundo” da FCGulbenkian, ciclo esse que hoje é um interessante livro editado pela Tinta da China. E então, já antecipadamente condicionados pela aura humanista da “anedota” veiculada pela Internet – anedota no sentido castelhano do termo – que nos diz este senhor?
Começa: “Embora não pareça, o homem, naquilo que tem de criador, não provém do passado, e sim do futuro. Provém do futuro, provém da sua expectativa, e dirige-se dele ao presente, isto é, rumo ao presente a partir da convocação que lhe fazem os seus projectos.” Assim sendo, somos o que sonhamos, o que almejamos e queremos, e desse futuro sonhado descemos aos dias de hoje para erigir as transformações necessárias. A translação que se faz a seguir é a de que se não sonharmos, o nosso presente perde sentido já que não existe futuro perseguido. Ou o que pode acontecer ao futuro do sujeito que não sonha: “a crescente volatilização do cidadão em favor do consumidor”. Por outro lado, a ausência de um futuro pode impelir-nos para a defesa de um passado e da sua putativa eternidade ou imutabilidade, donde o ressurgir da “angústia perante a diversidade imposta pela figura do estrangeiro”, fonte da diferença. Não sabemos para onde queremos ir, e tudo nos parece estranho, perdidos no meio de uma caverna sem luz. Tudo o que nos toca é portanto literalmente mal-visto e rejeitado. E mais é dito: “Um homem privado de subjectividade é um homem privado de discernimento”. Sem futuro por cima que nos guie, é o presente que nos resta um acumular de factos, de títulos em letra gorda, de agressões que consumam a ideia de “trauma” que atravessa este ensaio. O homem é um ser cego, perdido e que vive à defesa.
Em seguida Kovadloff caminha pela necessidade de uma nova “consciência planetária” para uma adequada convivência com a Natureza. Mas uma vez mais, roda para o homem ao afirmar que: “Uma nova valorização da Natureza não se produzirá enquanto o homem não for capaz de transformar a compreensão de si próprio.” E adiante afirma esta melancólica certeza: “Hoje sabemos.” E o quê? Que sempre a semente do conflito, a agressão e a guerra serão uma real possibilidade. E conseguimos prolongar a vida sem sabermos por definição o que ela é. E aqui temos outro duplo traumatismo, o de vivermos agressivamente porque assim o somos, e de nem bem sabermos porque vivemos (e cada vez mais). E é o “contrato social” uma tentativa incompleta de produzir um freio à inevitabilidade do conflito. Cita-se Cortázar: “devemos viver combatendo-nos.”. E afirma-se que: “O universo de substituições indispensáveis a que chamamos cultura evidencia (…) a sua fragilidade, embora só nele o desejo de humanização possa encontrar uma configuração”.
Daqui parte Kovadloff para a parte mais positiva do ensaio ao falar de uma “luta defensiva e ofensiva ao mesmo tempo”, e que o “homem esperançoso não é o que acredita que amanhã as coisas vão melhorar. É, pelo contrário, aquele que percebe, num presente de escuridão homogénea, nuances e cintilações que lhe evidenciam que a realidade não é uniforme” Afinal, a esperança é hoje.
Rodando uma vez mais, o autor lança-se sobre a definição do saber e sobretudo da ignorância. E é dito: “Em todas as faculdades formam-se, ano após ano, professores, licenciados e doutores. Mas nelas não se formam, rigorosamente universitários. A palavra universitário, na sua primeira acepção, traduz, como se sabe, a ideia de universalidade(…).” Donde que hoje não há universitários. Portanto: “”São fenómenos inteiramente diferentes e até contraditórios o facto de oferecer profissionais a um mercado de trabalho e o de capacitar indivíduos para que saibam agir como cidadãos cultos”. Fazendo o circulo, pertenceria ao universitário a tal visão de conjunto que promovesse a alteridade, o privilégio das diferenças “mais subtis”, a prossecução de uma “consciência planetária”. Tarefa impossível quando a actual noção de progresso “está muito mais encaminhada para a produção de consumidores do que de cidadãos, como bem o evidencia a actual crise de sentido que envolve as democracias ocidentais.” Faltam então, paradoxalmente universidades, daquelas do antigamente onde se ia beber o saber todo, de forma a que os olhos sofressem uma mutação decisiva. Este clic mental hoje não acontece. Sem a cultura universitária as noções de sensibilidade, complementaridade, solidariedade e humanismo desaparecem. E é dito: “Sartre não tinha razão: o inferno não são os outros. O inferno é o narcisismo que condena aos outros.” E aqui o raciocínio encaminha-se para a análise desta fase de recuo da democracia em que vivemos perante a vontade de poder que não se compadece com o voto partilhado e com a noção fundamental da igualdade entre todos os diferentes. E atinge-se a afirmação mais trágica: “Se não nos precavermos, acabaremos parecendo (e não sendo) humanos; celebrantes cegos do gozo tanático e não do prazer.”
Como epílogo Kovadloff termina defendendo que a destruição pelo empobrecimento progressivo do idioma no nosso uso quotidiano é um sinal de tudo o que atrás se disse. Um idioma mais pobre reflecte uma sociedade mais uniforme. Um maior conjunto de diferenças precisará de mais palavras para ser enunciado. E as últimas frases são a súmula do que foi sendo dito, por um homem entre os homens “esperançoso”: “Somos quem somos na medida em que não formos o mesmo ser. Só na medida em que não formos o mesmo ser é que podemos ser semelhantes. Se podemos reconhecer-nos uns aos outros é porque não somos iguais. O nosso parentesco está garantido pela irredutibilidade de uns aos outros. A nossa fraternidade nada tem a ver com a tolerância, essa manifestação gentil da indiferença; ela só pode nascer do recíproco amor às nossas particularidades. O milagre radical, na nossa espécie, consiste, para cada um e para a consciência de todos, em ter sido um por uma única vez”
Brilhante.

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segunda-feira, julho 09, 2007

Bach e o Prelúdio em Sol M da 1ª Sonata para Violoncelo







"Ogers have layers, layers!”, dizia Mike Myers, Shrek, ao Eddie Murphy, o burro.
O Prelúdio da 1 ª Suite em Sol M para Violoncelo de J.S.Bach explica melhor que ninguém os fenómenos tectónicos das camadas, destas de que o Shrek falava, em 2’30’’.
E consiste a vida, esta nossa, em coisa aproximada a esses menos de 3’. Em tumulto se vive, e só, que o resto viver não é. Banhada em rugosa melancolia, a corda dos dias puxa-nos cada vez mais para o fim, sem remissão. Não há outro instrumento para transmitir a rugosidade, o tumulto, esta melancolia perene. Um violoncelo não ri porque fala a verdade, e a verdade não está para risadas. A verdade usa a clave de Fá. É outono sempre, e é tarde, e estamos no fim.
Mas há ainda tempo para fechar os olhos nos 2’30’’ do Prelúdio em Sol M na interpretação de Pau Casals, antiga como o tempo, rugosa como se de um resumo se tratasse de uma vida que já se perdeu e sabe. A 1ª Suite para Violoncelo começa portanto com o mais brilhante dos epitáfios. O resto é apenas contar o que foi que aconteceu entretanto.
Fuck the layers!

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quarta-feira, julho 04, 2007

Pope Innocent



O título, em inglês, deste quadro de Francis Bacon, é em si mesmo uma reflexão.

Perante a nossa absoluta impossibilidade em acreditar na inocência deste augusto personagem - nós, a História, e todo o séc. XVII - parece este quadro oferecer-nos a hipótese de, num pequeno episódio, num recanto momentâneo do fluir deste dono das almas, não ter havido culpa, e o gesto pensativo ser um reflectir de antecipação, o saber de um julgamento que a História, e o Pintor, fará muito depois.

Não estamos a falar da extorsão de bens, das guerras continuadas, do esbanjar de bens em obras de terrena glória, culpas conhecidas, não. Pensamos sim num pequeno detalhe, num gemer aqui ou ali de que Inocêncio X não tenha sido culpado.

O Mal Absoluto não existe, afirma-se. Agora eu tenho as minhas dúvidas. E posso portanto "discordar" deste quadro.

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segunda-feira, julho 02, 2007

Uma vez que fosse


Como Raul de Carvalho, uma vez que fosse: o poema perfeito.

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quarta-feira, junho 27, 2007

Feliz Aniversário


Uma amiga minha acabou de ter uma filha. Que a bem dizer não queria. É feliz. Está bem. A filha é um pacote de doces feito um só. Vai correr tudo bem.

Ontem um amigo meu, médico, foi visitar um doente ao internamento de Psiquiatria do seu Hospital. Cruzou-se com um conhecido do Secundário, que ali estava internado. Acabara de ter “alta disciplinar”. Esse rapaz terá filhos dois. E é casado – há bastantes anos, com uma outra amiga do secundário. Boa gente, muito boa gente. Informando-se sobre a “alta disciplinar”, reconheceu afinal como brincadeiras liceais velhas de vinte e cinco anos, podiam ter perguntado, tanto aparato para o mesmo, também então no secundário já aconteciam algumas “faltas disciplinares”. Como serão os filhos, como estará este casamento bem mais velho do que os dois que o meu amigo já leva em serviço? Parva, esta curiosidade, e com algum atraso. Voltarás a vê-lo, ou não, daqui a dez anos, por ex., qual dos dois o internado, não sei.

Este meu amigo médico hoje devia celebrar várias coisas, umas não pode (está a trabalhar), outras não pode (pelo anacrónico da situação em causa, e da qual se separou vai para uns anos). Curiosa esta associação de datas. E tem uma filha com quem poderia fazer uma celebração, que não a outra. Ela, a filha, está em viagem de autocarro até ao Zoo de Lisboa, identificação ao pescoço, 5 euros na carteira, para os gelados.

Vivemos rodeados por filhos-da-puta, sendo que o maior deles é o “acaso”. Razão tinha o O’Neill.

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quarta-feira, junho 20, 2007

Correcção a Alexandre O'Neill

O medo vai ter tudo / mesmo tudo

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quinta-feira, março 29, 2007

7 Grandes Portugueses

Por exemplo:

Amadeo. Maria Helena Vieira da Silva. Carlos Oliveira. Ruy Belo. José Afonso. Paredes. Cesariny. Nemésio. Jorge de Sena. Sá Carneiro, Mário. Eloy, Mário. Pascoaes. Suggia. Herberto Helder. Eugénio de Andrade. Sophia. Almada. Agustina.

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quinta-feira, março 22, 2007

Joaquim Manuel Magalhães e a Língua Galega

A 10/03 no semanário Expresso JMM tece algumas considerações sobre um livro de Ivo Cruz (julgo ser este o nome) que faz a história do Português, e aí aproveita para desancar o Galego.
Primeiro, elogia o facto de em livro se assumir ser o Galego e o Português línguas diferentes. Este é um facto que a prática torna óbvio, embora tal decisão deva ser do domínio dos linguistas. Certo é que, trabalhando eu em área profissional onde a presença de espanhóis é grande, a integração linguística dos originários das terras de riba-Minho é bastante mais fácil, sobretudo para aqueles que são originariamente galego-falantes...
Sendo o Galego língua outra, não deixa de ser irmã quase-gémea, sendo que as "dissonâncias" de que o autor do texto se queixa, digamos que de uma forma pouco elegante, podem ser arcaísmos, ruralismos, sinais apenas de uma evolução outra, ou de uma interacção com o castelhano distinta, etc. São é o que são, truísmo que a todas as línguas se aplica, sem mais. Depois pode-se não gostar. Eu, a mim, o Eslovaco por ex. cai-me mal.
O pobre Galego, cuja história JMM talvez desconheça, mas que inclui o "parimento" do seu tão caro Português, difícil tem já com medir-se no espaço espanhol com a língua de Cervantes. Ainda mais quando Rosalia para o fazer seu teve que andar dele à procura. Proibidos pelos próprios (Franco, galego de nascimento), desprezado por Madrid e, pelos vistos também por Lisboa (na pessoa de JMM), é esta língua pobre e maltratada, mas o código genético não deixa mentir: se formos raspar umas "celulinhas" à língua de JMM, tentando não maltratar as gustativas papilas, por muito coimbrã ou lisboeta que seja, por aí andarão os genes de Lugo, de Ourense, de Santiago.
Eu sei que o Português maduro foi moldado em Coimbra e Lisboa, eu sei.
Eu sei, eu vi, que os poetas galegos às vezes declamam em galego e depois agradecem os aplausos em castelhano, eu sei. Eu vi.
Mas contra factos não há argumentos: a estátua de Rosalia nesta cidade do Porto, a própria Rosalia, Castelao, ou por exemplo os Rivas de hoje, que buscam (ou nem precisam buscar) a publicação também em castelhano como um facto natural e não um pseudo-oportunismo, não mereciam o que foi escrito.
JMM nasceu na Régua, povoação que não é raiana, mas é aqui perto. Venha um dia desses cá acima. Sugiro-lhe depois um passeio pela raia, do Alto Minho, do Larouco, de Chaves. Saltite um pouco a fronteira. E experimente umas falas com as gentes de um e do outro lado. Compare, e aprenda. Onde nasceu a língua que é a sua.

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quarta-feira, março 21, 2007

MFR

O que estamos todos a precisar é de ligar a Máquina de Fazer Rir!

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sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Aviso à Navegação

Os fortes dividem. Os fracos são divididos. Os mais francos assim ficando: divididos.
Está porém descrita na natureza a existência de elementos mais fortes ainda que unem, congregam, compõem, criam uma nova estrutura onde antes existia a desordem.
Fala-se ainda de uns poucos que restam, nem fracos nem fortes. Têm a vantagem de não quebrar: apenas se separam. Como quem escolhe.

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