terça-feira, setembro 15, 2009

António Osório

Mãe que Levei à Terra




Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias?
Que medula, placenta,
que lágrimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne?


Mãe que levei à terra
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas
o sopro de teus avós?


Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu não existia, meu Pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?



António Osório, in 'A Ignorância da Morte'

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terça-feira, setembro 01, 2009

Anunciação

Não tenho palavras, nem entendo
formas visíveis.
Elas vêm concretas como aragem
a que dou nome.

Tenho-me, eis tudo. Acontece.
Há uma folha que desce,
que sobrenada, que desce,
que submerge no ar e depois desce
longe de mim no ar fundo.

Nós não somos deste mundo.

Fresca e limpa como a chuva,
ouço a tua voz cantada
descer do céu ao silêncio
que vem da terra molhada.

Nós não somos deste mundo.

Ouso dizer-te o meu nome
como quem se atreve a dar-te
a minha imagem.

Nós não somos deste mundo.

O que não vejo, entendo.
Pelos rios do meu sangue,
atrevo-me.

Anoitecendo, a vida recomeça.

Dou-me em palavras
que ressuscitam.
Algures no céu amanhece.

Só, intranquilo, pela vereda, desce
o nómada meu amigo.



de Ruy Cinatti, in Corpo-Alma, Presença, 1994 (abrindo a Telhados de Vidro nº12, Averno)

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quarta-feira, agosto 26, 2009

Leituras

No Leituras Millás, Vila-Matas, Schlink e Jan Morris.

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terça-feira, agosto 25, 2009

Un subnormal con bigote

"-Todavía juegas a hacerte el subnormal?
Me volví y vi a un tipo de mi edad que tenía una pelota de niebla donde otros llevan el rostro, quiero decir que no se distinguían las partes de su cara, aunque había momentos en los que le veías algo familiar; no era, pues, que llevara niebla, sino que aquel rostro maduro evocaba el de Luis, uno de mi calle, más que eso, el jefe de mi calle, que me miraba con desdén cada vez que yo me hacía el subnormal, y fue en ese desdén, creo, o en su risa, donde empecé a reconocerme como un tonto, y a partir de entonces se inició también el proyecto de hacer con ese tonto un listo. Era Luis, digo, y yo llevava el bigote puesto, de manera que se trataba del primer encuentro de El Hombre del Bigote con su propio pasado, y eso lo supe en seguida, como en una revelación. Reaccioné bien, Luis, dije, cuánto tiempo, y él repitió la frase, seguía con ese gesto de superioridad que encubre a los que padecen un grado de minusvalía mucho mayor que el mío, pero quizá por eso se había visto obligado a disimular mejor, y la verdad es que parecía no tener un pelo de tonto, en realidad estaba calvo y eso le había avejentado, aunque a la manera socialdemócrata, o sea, bien."

excerto de "Tonto, Muerto, Bastardo e Invisible", de JJ Millás, ed. Punto de Lectura 2007 (1995)

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terça-feira, julho 07, 2009

Bénédicte Houart

"nem todos os homens que
saem de minha casa saem da minha cama
nem todos aqueles que
saem da minha cama saem de dentro de mim
nem todos os que
saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar
não, nada é tão líquido assim"


in vida: variações, 2008, ed. Cotovia.

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segunda-feira, abril 20, 2009

Pamuk e Schlink

No Leituras, pois...

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quinta-feira, março 26, 2009

A. M. Pires Cabral

ARADO

I

A mecânica do arado é rudimentar,
clarividente e sóbria. Nada tem
em demasia: o que a função requer
e nada mais.

No perfil eficiente do arado
há qualquer coisa de navalha, qualquer coisa
de falo em riste, em transe de fecundar.

De facto, noutros tempos,
era o arado que rasgava a terra,
fazia dela um ventre aconchegado -
cenário certo para o deflagrar da vida
que vai dentro das sementes.

Isto foi no tempo em que havia agricultura
nos gestos quotidianos dos homens
e das mulheres.


in "Arado", Livros Cotovia, 2009

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segunda-feira, março 23, 2009

Gonçalo M Tavares

...no Leituras.

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terça-feira, março 17, 2009

Vocação

“Eu tenho só uma, que é escrever. Usar a palavra, dar-lhe vida, confiar nela para que nela vejam verdades poderosas, como a de sermos destinados a coisas maravilhosas”.

Agustina Bessa-Luis, in Dicionário Imperfeito, Guimarães Ed.

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domingo, março 08, 2009

Mais Herberto Helder

(...)
"Deus tem uma cabeça demasiado pesada, ocupa totalmente o alforge do pão. Crê-se mesmo ser abusivo um toque no ombro com vista a um momentâneo desvio da carga. Deus dorme, dorme de um sono pesadíssimo, e por isso pesa tanto aquela cabeça. Às vezes pretendemos acordá-la para que se faça mais leve. Tudo morreu em nós menos exactamente a morte das coisas divinas."
(...)

in Photomaton & Vox, 4ª ed., 2006, Ass.&Alvim.

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Mais

Leituras: Pamuk e Ilse Pollack

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terça-feira, fevereiro 24, 2009

Leituras

Vila-Matas e Gil de Carvalho, no Leituras.

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quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Lavandarias Atenienses

(...)

"Mexendo, para levantar a cortina que no pequeno talho - um ritual - ia suja com as roupas espremidas e que a inteiriçavam toda. Depois, uma franja cega, que teu pai finalmente viu - e a decisão de mandar-te para Lisboa. Vieste seminua para a entrada, após dois tiros disparados quase simultaneamente. O homem teria passado a cerca e entrado. Na realidade, manquejava um pouco, agora, e estava inocente. Eram coisas que trazia, em geral do Moinho, pela madrugada, onde se haviam cruzado os cheuiros fortes da serra. O pequeno falcão cinzento, a doninha brilhante, ervas ásperas, juntos na necessidade de vir por aí acima. Desequilibrou-se na palha húmida e mal cheirosa. E tu, num assomo franzino, pegaste na foice espetada na trave e deste com ela uma única vez no pescoço mal acordado. Caiu a contrair-se mas sem um gemido. O mundo amoleceu bastante desde então. Há quem diga. Nas lavandarias atenienses é que prosssegue o inevitável."

Gil de Carvalho, in A Cidade de Cobre, ed. Cotovia, 2001.

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sábado, janeiro 17, 2009

Os Passos Em Volta

Por razões várias estacionei estes últimos meses em "Os Passos Em Volta" de Herberto Helder.




"Sou uma pessoa esquisita. Deito-me e ponho-me a fumar e a ouvir discos. Ouço Bach. Gostaria de ter um cravo e tocar. Fumo muito. Faz-me mal. Abro um livro e leio duas ou três páginas. Às vezes trago uma prostituta para casa e tento que ela beba comigo meia garrafa de brandy. Mas não sei conversar, e ela sente-se constrangida, lesada. Então digo qualquer coisa: o teu cabelo, por exemplo. E a rapariga não compreende. Há ocasiões em que as prostitutas imaginam tratar-se de um cumprimento, e sorriem. Sorriso vacilante, que se não sabe se crescerá, apossando-se do rosto todo, da pessoa toda, ou se então será reabsorvido em si mesmo. Estaria porventura no meu poder fazê-lo aumentar até à emoção, à gratidão. Mas fico-me por aí. Acendo mais um cigarro. Ela tenta: o meu cabelo?"

in "Duas Pessoas"


"Alguém pôs-se a cantar na casa ao lado. As pessoas sabem cantar. É admirável. Debaixo da canção, minha mãe recomeçou a bordar. Bordava uma flor imensa em pano cru. Por dentro, eu estava completamente frio. Ou aterrorizado. Sei apenas que sorri para a minha família - dois velhos estúpidos e inocentes - cheio de boa vontade. Minha mãe acreditava muito na sua força materna. Eu sorria, e estava frio, ou angustiado. Então a pêndula deu horas, muitas.
-Voltaste, voltaste.
Que grande aranha, esta mãe velha. As suas patas finas corriam sobre o bordado. Bordaria séculos adiante."

in "Trezentos e Sessenta Graus"

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quarta-feira, janeiro 14, 2009

Lido

Fernando Pessoa decifrador e Italo Calvino desmultiplicado. No sítio do costume.

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quarta-feira, dezembro 31, 2008

"Náusea, ou é a morte que não chega?"

Entrega-te, coração,
Já lutámos tanto,
Que se suspenda a minha vida,
Não fomos cobardes,
Fizémos todo o possível.
Ó minha alma,
Vais ou ficas,
Decide,
Não me apalpes assim os órgãos,
Às vezes com tanta atenção, outras tão desatentamente,
Vais ou ficas,
Decide.

Já não aguento mais, eu.

Senhores da Morte
Não vos injuriei nem aplaudi.
Tende piedade de mim, viajante de tantas viagens sem bagagem,
E sem amo, e sem riqueza, e sem glória,
Sois decerto poderosos e sois sobretudo surpreendentes,
Tende piedade deste homem aflito que antes de franquear a barreira já vos grita o seu nome,
Agarrai-o depressa,
E então, se ele puder, que se acomode aos vosso feitios e costumes,
E se fôr possível ajudá-lo, peço-vos eu, ajudai-o.




poema de Henri Michaux mudado para português por Herberto Helder
in Doze Nós Numa Corda, Ass&Alvim, 1997

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terça-feira, novembro 25, 2008

Lido

Doris Lessing e António Gancho, na esquina do costume.

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terça-feira, novembro 18, 2008

Última Declaración de Amor

Oh Vida,
que todo me lo has dado.
Ahora ya sé, que siendo esto verdad,
nada me has dado.
Mas déjame mirarte aún con amor,
aunque no tenga ya deseos de abrazarte.
Y aunque sepas que yo no te abandono
puedes tú abandonarme.


de Francisco Brines, in La Última Costa, 1995

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quarta-feira, novembro 12, 2008

JMFJ e Ursula...

Ursula K. Le Guin e João Miguel Fernandes Jorge no Leituras... vejam lá que mix!

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terça-feira, outubro 28, 2008

Leituras

Max Gallo e Millás no sítio do costume

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