segunda-feira, setembro 14, 2009

Um simples trocadilho

Hoje surgiu-me de repente este trocadilho sobre uma conhecida figura pictórica: a "Ferida Calo" - "Ferida" de 1º nome, "Calo" de apelido!
Pois, e agora o texto? Estivessem as coisas mais calmas e...

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sábado, setembro 12, 2009

Do Gilson alguns problemas

Já todos ouvimos falar do jovem médico em formação no serviço de Cirurgia Torácica que esteve algum tempo em greve de fome encerrado numa sala dentro do Hospital de São João. Conversei este dias um bom bocado sobre este tema com um amigo meu, médico, e esta conversa ajudou-me a ter ideias mais claras sobre o acontecido e o que ainda está a acontecer.
A especialidade de Cirurgia Torácica, de todos conhecida, trata de cirurgias de enorme responsabilidade e de grande risco, necessitando de um grande expertise em situações de coração aberto, clampagem de aorta, bla bla bla, etc. Quem falha nem que seja um pouquinho nestes temas mata o doente nas calmas e sem tempo para exéquias prolongadas: em segundos. O internato de Cirurgia Torácica, ou seja, o tempo de treino necessário para adquirir o título de especialista de, seis anos, é um tempo de enorme sobrecarga de trabalho, horas muitas a mais, stress, pressão, esforço. Neste como noutros internatos médicos a sobrecarga horária aplica-se por conveniência e/ou necessidade do interno, dos doentes, do serviço. Acontece, o sistema vive dela. Assim se aprende também. É assim na Torácica como em Dermatologia. Com a diferença que na Torácica podemos ter que operar quatro-cinco horas de pé e praticamente sem interrupções. É assim no Porto, em Coimbra, em Barcelona, em Londres, em Los Angeles, nas Ilhas Caimão. Um qualquer "flip" mental no meio deste filme mata.
Posto isto, não existe qualquer direito à formação, ao ensino, que se sobreponha ao dever de eximir um doente numa mesa de operações do risco - rapidamente letal - de alguém instável psiquicamente e incapaz de se controlar perder a mão e, digamos, abrir quando devia fechar, apertar quando devia soltar, clampar quando a dica era descamplar.
O resto é um enxame de detalhes, uns mais importantes do que outros, que giram à volta da dignidade de uma pessoa transtornada, o Gilson, a sua parece-me enorme solidão, a alguma/muita inabilidade para um Hospital ou Faculdade ou o que seja lidar com alguém que possivelmente não devia ser sequer licenciado em Medicina.
O meu amigo médico lembra-se de um colega de curso que terminou o curso entre crises de pânico e estudo de testes cedidos pelos colegas de turma. Num ano lectivo nunca foi a nenuma aula, por medo. Tem corrido várias especialidades médicas não terminando nenhumas, de vez em quando despe-se em fontes públicas.
Não me parece ser o caso do Gilson. Obviamente o Gilson não pode prosseguir o internato de Cirurgia Torácica.

Vidé o seu blog: http://www.grevedefomeemdirecto.blogspot.com/

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quinta-feira, agosto 27, 2009

20h03m

"Mas já é tarde."

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sábado, agosto 01, 2009

Férias

É.

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quarta-feira, julho 29, 2009

Basswoman


She sure knows how to rock!

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quarta-feira, julho 22, 2009

Rain

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domingo, julho 19, 2009

O fornecedor de palavras

Esta frase persegue-me há umas semanas. Tantas coisas têm acontecido, tantas, para as quais palavras não tenho.
Eis portanto que estou a necessitar com urgência de um "fornecedor de palavras"...

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segunda-feira, junho 15, 2009

Registe-se

Gonçalo M Tavares foi pela primeira vez aos Balcãs. Registe-se. Eles, agradecidos, deram-lhe um prémio.

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quinta-feira, junho 11, 2009

At Last!


Obrigado, Juanjo, chove, mas não no meu quarto!

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sexta-feira, junho 05, 2009

Seis Meses

Seis meses passaram sobre a morte de um Amigo. Viajando no computador encontrei um primeiro texto escrito uns quinze dias antes daquele que depois aqui coloquei em homenagem a. Ainda eras vivo, ainda não tinha estado contigo - pela última vez. Eu sabia que coisas tinham ficado por dizer. Claro que seis meses depois só podiam ter acontecido duas coisas - a) esquecermo-nos b)ruído de fundo.

Portanto aqui vai a versão "beta" da coisa, com motes repetidos, e voltas, e mais nada. Não interessa. Interessa que morreste e eu lembro-me.

"E agora, quem vai operar a minha mulher, quem vai resolver aqueles pequenos raios cuja interpretação científica não tem nada a ver com a realidade nem vou neste momento dedicar-me a explicar linha por linha e nem são muitas mas, repito, quem vai operar? Hem? Mesa de trabalho exposta que por orgulho natural feminino se quer sempre arrumada assim se vê quem não presta a devida atenção, eu, nunca prestei, nem muito préstimo para tal terei por isso me considero exageradamente com sorte e também de estar vivo e com alargadas perspectivas do mesmo, tu não já que não poderás operar quem nunca te foi sequer apresentada.
Foi há quase vinte anos apanhaste a varicela no tirocínio para marinheiro, tinhas um Clio GT batias o tempo mais rápido para chegar a Condeixa que era onde terminava o futuro, passávamos depois pelos Candeeiros ainda ontem os vi no Google Earth – nunca mais os vi – estão iguais. Tudo isto terminou ali na esquina da Ribeira das Naus quando fomos jurados, tiveste uma discreta companhia à espera, família, namorada, não sei um pequeno postigo sobre o resto teu de que eu nunca soube, perguntavam-me por ti eu dizia “discreto, calado” e depois outras coisas a minha companhia de então sendo C., se fosse preciso também a operarias a ela, porque não, este texto porém não vai por aí. Tinhas um irmão que manobrava um Impreza e coleccionava semáforos fechados nas noites de Lisboa, lembras-te? E tu dizias “o meu irmão é louco.” E olha, fumavas por teimosia, não, ou hábito ou construção muito construída, e bebias moderado-institucionalmente, sabes que ainda hoje tu és o Mr. J&B para mim, justo ou injusto mas com aquele estilo, as nossas partes comuns paradas há 15 anos e no entanto eras família, eras mais do que família, eras um Amigo. E o teu olhar acendia-se com um cigarro, com um J&B, com a piada fina, um torcer de ombros à puta vida, e tinhas um riso pequeno, de puto, e dizias ou “é assim” ou “que se fôda” ou “estive ontem com o...”, a lembrar territórios antigos.
Portanto a doença percebeu que no teu caso tinha que ser manhosa, que no teu caso tinha que ser decidida e ir logo pela jugular ou como quem diz pulmão - trás- cabeça, que é na cabeça onde estamos aí está a tua doença também, rápida a partir do local de origem para subir tão alto pois mais alto não podemos chegar, assim está construido um Homem.
O meu Pai, a minha Mãe e tu, acho, as únicas pessoas a chamarem-me pelo duplo nome que me define, nem eles sabem que irão ficar mais sózinhos já o são aliás bastante, nem vão notar a diferença. Nunca te julguei “louco” como do teu irmão dizias, aliás a tua magreza sempre me pareceu uma busca de um equilíbrio, uma possível solução não um delírio qualquer mas olha, lembro apenas das palavras de um nosso Rei que visto em grandes apertos finalmente se fez grande - não vou enunciar as palavras, tinha algo a ver com a velocidade de um caminho para a morte – não sei se será esta a tua opção, qualquer que seja será obviamente a correcta.

P.S.: aliás, por ex. nunca me chamaste Miguel, ou Alexandre, como muitos, sei lá porquê. Nem imaginas a falta que me vais fazer, quando se tornar definitiva a tua já habitual ausência."

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quarta-feira, junho 03, 2009

Vandôma


A "Crónica do Rei Transparente" é um livro escrito e publicado por Rosa Montero, uma das minhas colunistas preferidas do El Pais.
Não deixa de ser um romance agradável, medieval-de-esquerdas, etc. Lê-se bem, melhor do que Miguel Sousa Tavares, etc., mas... "não fica".
Serve esta introdução para falar desta sensação que ultimamente me atinge, e que nada tem a ver com o protagonista do romance de Rosa Montero, esse tal Rei Transparente...
Sim, vejo-me transparente, ando, sento-me, espreito quem me rodeia, não procuro - procuraria o quê? - deslocalizo o visor porque parece-me que ali não estou. Parte deste copo que bebo sei donde vem, a escola que o produz. A outra parte...
Claro que podemos transmutar não em ouro esta vida mas em outras estas palavras e explico: não serei - não sou - transparente, no sentido de linear, explicado, corrente. E no sentido em que a transparência assim posta seria uma bem aventurança - logo os sensores que acusam não acusam esta, este transparecer, a acção seguinte será de anular o que não é agradável, liso, polido, certo. Anular.
Li recentemente a biografia do rei D.Afonso VI - podia-se falar de uma "Crónica de um Rei Anulado".
Ok, e porém... vamos a leilão. E vendemos o quê? Para quem comprar? Ou comprar quem, foda-se, entendeste-me, não entendeste?

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sábado, abril 18, 2009

11 meses

Em fotografias de telemóvel, eis do que se trata.

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terça-feira, fevereiro 17, 2009

Pubalgia linha

E se há coisa de que eu goste é que me citem para tentar convencer-me de alguma coisa!

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sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Novo Resultado: Sporting, A - Porto, B.

E a determinado momento, tinha eu parado na estação de serviço do Pombal e vi um rapaz vestido com a camisola do Porto de seu nome Josué. Depois o Derlei marcou um golo, era o 4º. Dois tinham sido de penalti, pelo Romagnoli. E constou-me que tinham vergonhosamente roubado um golo ao Postiga, marcado... com a mão.
Jantei ali razoavelmente, uns bolinhos de bacalhau com arroz de tomate.
Até nas estações de serviço, quanto mais ao sul melhor se come!

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quinta-feira, janeiro 22, 2009

Subitamente

A civilização e o desenvolvimento tem destas coisas. Uma amiga minha contou-me que um seu irmão, “estrangeirado” e padecendo de uma qualquer doença cardíaca foi proibido pelo genro, nativo lá da terra estranha e culta, de ir buscar as netas ao jardim de infância, por medo de ao avô poder dar “alguma coisa”, coisa qual seria muito mau exemplo para as miúdas, nativas de dois e quatro anos de idade. Indo pela pior hipótese, a morte súbita, curiosa expressão, acompanha em risco variada patologia, incluindo alguma cardiovascular, disseram-me. Desconheço se “lá fora” conhecem a famosa canção dos Xutos sobre a “morte lenta”, outra curiosa expressão. Da vida para a morte desenha-se afinal uma linha contínua, uns dizem que se desce outros que é a subir, uma variável contínua porque variável pode ser a forma de morrer, e vem a ciência e depois define: “aqui ainda estava vivo”, “agora já não, está morto”. Sabemos que não é bem assim.
Esta odiosa proibição lembrou-me um episódio que ocorreu na minha mais tenra infância, teria eu uns quatro, cinco anos, mais não. Morava na Ribas, bairro que na prática são duas ruas de Ovar na direcção para a Ribeira, e fôra acompanhar o meu pai a buscar vinho – o garrafão de cinco litros da praxe, estamos a falar de 68,69 – ao armazém de vinhos que então ali ficava no gaveto donde partia a rua para o Hospital, fim da João de Deus, início da Alexandre Sá Pinto. Pouco abaixo era a Cooperativa do F.Ramada, inveja de quem não podia entrar, pouco acima os dois armazéns de sal, tugúrios onde eu às vezes ia comprar sal a granel, ao peso. Esclareço que os cinco litros davam para bastante tempo.
Enquanto se enchia o garrafão a conversa dos homens, e eram três, girava em torno da alta recente de um deles do Hospital de Ovar, nem eu percebia que doença tinha sido, nem o homem em questão me parecia doente. Não sei porque tenho a impressão que estava ali mas a comer alguma coisa, um bolo de bacalhau, não me lembro bem, como se a recuperar da fome que o internamento provavelmente lhe tinha originado. De repente o homem parou de falar e revirou os olhos. Escorregou até ao chão e ali ficou deitado, a boca aberta, alguma comida ainda sem entrar. Lembro-me distintamente e a cores da cara do homem, congestionada primeiro, depois branca como papel e finalmente cada vez mais arroxeada até atingir um roxo escuro. Os presentes, o meu pai e o armazenista, deram algumas sapatadas ao homem, talvez uns bofetões. Os primeiros-socorros eram um saber por saber naqueles tempos. Nada: o homem morrera ainda antes de ter tempo para se engasgar. Telefonou-se para os bombeiros, que ficavam a duzentos metros. E ficámos à espera, dois adultos, uma criança e um morto. Lembro-me do silêncio. Os bombeiros vieram, pegaram no corpo e levaram-no para o Hospital, que ficava trezentos metros à direita, a verificar o óbito. Não me esqueci deste episódio, pertence à dúzia de flashes que possuo da minha primeira infância. Não me sinto traumatizado, nem no sentido ortopédico nem em nenhum outro pelo acontecido, desde então sei que a morte existe e é como uma invisível corrente que nunca sabemos a que perna se vai agarrar e é só isto. É ter cuidado e ver onde pisar, avisando o próximo se de um amigo se trata.
Lembro-me também de um dia, ao atravessar a correr a Praça um velhote ter-me agarrado pelo braço e perguntado: “Tens medo de morrer?” ao que eu respondi: “Tenho!”. O velhote riu-se a bom rir, “e porque tens medo”, “e olha ele tem medo” e já então, do alto dos meus seriam oito, nove anos, me pareceu um absurdo não ter medo de morrer.
Tudo isto não levanta o ser odiosa a proibição acima.

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quarta-feira, janeiro 14, 2009

Eis porque eu acho que


esta campanha está bem fixe...

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segunda-feira, janeiro 12, 2009

"We ask the international community for more time..."


Oh, Israel, Israel, ínvios e difíceis são estes caminhos agora trilhados! E porém a curta memória dos homens esquece que já foste exemplo de país novo e diferente, a juventude viajava para trabalhar nos teus kibbutz, terra ganha em guerra mais ou menos limpa e sangrenta de exército contra exército, assim estava escrito, 48 e depois. O teu sonho perdeu-se, vê como a palavra “colonato” não rima com “kibbutz”, embora se consiga ver no Google Earth, nos Microsoft Maps – são aquelas zonas arrumadinhas e ajardinadas pela Cisjordânia fora…
Sim, Israel eu li – há muitos anos, é certo - o Êxodus de Leon Uris, depois deixei de o ler e de o considerar mas sei que a tua história não começou em 1948 mas muito antes, os judeus não foram transplantados pela Europa para ali, decidiram por eles ir à procura da sua terra e foram indo, comprando, lutando, comerciando, (também roubando, também expulsando, eles que tinham sido expulsos do mundo - crime sob a forma de tentativa) em 1948 já havia centenas de milhares de judeus na Palestina, quase todos de extracção europeia, os sobreviventes, exactamente, de algo que tinha acontecido e para o qual ainda não se decidiu o nome definitivo.
Os anos passaram, os inimigos são agora adolescentes barbados com fisgas ou jovens moças suicidas, são rockets lançados a partir de túneis escavados sob hospitais, ao lado de escolas, em mesquitas. A guerra de 67, chamada dos Seis Dias porque isso durou e não mais, dura há 40 anos, pois o mapa em que naufragamos nela foi desenhado. Entretanto, Israel, cresceste. Foste ganhando judeus e judeus. Onde metê-los, esta nova gente menos secular, crentes tardios num Eretz Israel e num desígnio bíblico que, para os pais da nação era um património cultural único e imperdoável mas não uma ordem divina real. Se o palestiniano é a tua imagem negativa ao espelho e mais não consegue ser – até porque não o deixas existir - tu, novo Israel, és cada vez mais a imagem cada vez menos positiva deste lado do espelho. E cada vez mais só te sentes bem em diálogo com os tais extremistas, partilhando até algum que outro raciocínio. Por isso a tua política já não é o que era, o “trabalhismo”de uma Golda Meir ou de um Rabin, herança paradoxal dos “colonizadores” ingleses, cedeu lugar a um Likud colonizador e perpetuador do pesadelo cisjordano – e invasor do Líbano, donde metastizou Sharon e o actual Kadima, “centrão” de interesses rodeado pelos partidos religiosos dos colonos. Para o mês eleições que serão ganhas por Netanyahu, um Santana Lopes armado. Cada vez mais judeus foste portanto importando de todo o mundo já não como um projecto único de país mas sim pela ameaça demográfica palestiniana, e para alimentar, afinal aí como aqui o interesse de construtores especuladores de novas casas no deserto em condomínio blindado, eis porque tantos governantes teus têm ultimamente tido problemas com a justiça por corrupção. Os palestinianos com menos de 40 anos, portanto a imensa maioria, é como se não sentissem como natural um direito à existência tal a dificuldade que frequentemente sentiram para atravessar uma rua, pegar no emprego, comprar dois litros de leite. Ao fim de quarenta anos acabamos por acreditar no Deus mais incrível no mais extremo das suas promessas, e vestimos o mais improvável dos coletes, nem que seja o último. A culpa do Hamas existir não é da Fatah, é tua. A corrupção da Fatah levaria à criação de outros partidos, de outras correntes, seculares também, e a Palestina sempre teve gente para isso, acredita, a Cisjordânia em tempos que já lá vão era tão secular como Tel Aviv. A faixa de Gaza é uma invenção tua também, com os seus túneis de contrabando por onde passavam armas – e a comida e os medicamentos e as gentes. Aquelas dificuldades que eu refiro acima, frequentes mas não sistemáticas na Cisjordânia fizeram-se perétuas em Gaza. Saíste de Gaza unilateralmente apenas porque perdias mais do que ganhavas em lá ficar, pareceu-te. As terras e a água estão na Cisjordânia, portanto havia que concentrar forças. Gaza tem o nome de Faixa de mas é realmente como uma prisão, a maior prisão que existe no mundo. Tem mil vezes mais presos que Guantanamo, ora pensa. E a democracia dificilmente cresce numa prisão.

Este filme eu já vi, onde se procura vencer a encarnação do mal, o Hamas – e até aqui estamos todos de acordo – com uma ultrapassagem pela “direita”, ainda mais brutal, ainda mais violenta, ainda mais terrífica do que o próprio mal encarnado nos tipos das barbas, os extremistas islâmicos. No fim, quando a poeira assentar, Israel pára, vencedor, desafiante e dirá: “ganhei!” “mas não se esqueçam, o bom continuo a ser eu!” Claro que fica por resolver o que fazer com o milhão de habitantes de Gaza já que pelo andar da carruagem Israel só conseguirá matar 0,2-0,3% deles e ferir até 1-2%. Isto aproximadamente.

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quarta-feira, dezembro 24, 2008

Feliz Natal (Grand Theft Auto IV)

Aqui há uns dias fui a casa de uma amiga cujo filho mais velho fazia anos. Coisa mal pensada pois era dia de trabalhar à noite e os lanches ajantarados terminam sempre em jantar somente, teve o rapaz que soprar as velas antes de tempo porque estávamos de saída e portanto.
No sofá da sala, durante as duas horas que para ali estive sem dar cavaco a gente que na realidade não conhecia, um rapaz dos seus doze anos matou entre dez a quinze transeuntes de ambos os sexos, estourou vários carros e um helicóptero, andou à pancada e aos tiros com praticamente todas as pessoas com que se cruzava na rua, e isto com a particularidade do personagem por ele representado no jogo de vídeo, pois de um jogo de vídeo se tratava, aparentemente não morrer nunca. O jogo chama-se Grand Theft Auto IV e obviamente desejo a todos os leitores deste texto um grande e santo Natal. Cuidadinho com as prendas para os meninos, hã?

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quinta-feira, dezembro 18, 2008

Morreste-me.

Morreste-me! Não consigo deixar de pensar isto, por feia que soe a coisa. A verdade é que uma coisa assim não se faz, e vou-te explicar.
Lembro-me de ti não do Porto mas curiosamente da recruta na Coina, de umas poucas de noites em Lisboa. Eras fino e dúctil e silencioso, de piada esquisita. Chamavas-me por nomes que era como se fôssemos da família, diminutivos como de irmão mais velho, embora por meses o mais velho fôsse eu. Estavas já feito e decidido, fumavas imenso, cultivavas o teu J&B com parcimónia, nada mais sabia de ti. Podias ser um oculto praticante de artes marciais, ou comer bolas de ópio nas horas vagas, ou ainda salvar vidas com uma máscara nocturna e ser herói de banda desenhada - o “Dark Blade” - como referência à tua proverbial magreza. Não sabia se namoravas, sequer o que pensavas disso, por mim era como se as esfaqueasses ao fim de quinze dias. Mas porém, na Ribeira das Naus quando nos despedimos os dois da Marinha tinhas alguém à tua espera que (não) me apresentaste, senti-me então muito honrado. Só agora soube que afinal casaste, que enfim tiveste filhos.
E nestes anos todos assim continuaste, assim continuámos, paralelamente seguindo em silent mode, assumo que gostarias de jogar alguns jogos de vídeo com os teus rapazes, algo que terminasse em “…Avenger!”, por aí, ganhando no final com uma stickada discreta, um golpe de mão que depois acabavas por ensinar, “é assim que se faz”.
Estive contigo há uma semana. Reconheceste-me logo, pareceste contente. Pedi-te desculpa por te acordar – um pouco. Estavas, não estavas. Falei-te dos tempos passados, do teu irmão dentista que contava semáforos vermelhos na noite de Lisboa com um Impreza de dois litros, então era alguma coisa, caramba! Tu contaste-me a tua história recente, a negação, o medo, o medo. E, sabes, custou-me a aceitar o medo que referiste. Não vou explicar porquê. Estavas, não estavas, subitamente começaste a falar de línguas estrangeiras e que já não terias tempo para as aprender, o grego, por exemplo, e outras, não estavas. Morreste quatro dias depois. Antes das línguas estrangeiras disseste-me alguma coisa sobre que “não querias parar de trabalhar”, pois, e agora quem opera as varizes reticulares da minha santa mulher, hã, estúpido, quem? Meu cabrão de merda!
Sabes, no dia a seguir à tua morte, pelas fodidas razões profissionais do costume falei com vários amigos comuns e a verdade é que falávamos mais baixo, mais cal-ma-men-te, como se sabendo que nada daquilo era realmente importante. Que se fodam as varizes, não devias era ter morrido!

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quarta-feira, novembro 26, 2008

Base

Recebi recentemente um mail (não por engano, melhor seria...) onde by the way era definido o kit básico de maquilhagem feminina como sendo: "creme hidratante, base, sombras, rímel, lápis, baton e blush".
Como "utente" venho aqui referir a minha preferência pela sub-maquilhagem, e passo a explicar dado a dado.
Primeiro: um creme hidratante não pertence a uma maquilhagem, pertence às noções que também serão básicas de cuidado com o corpo. Uma pele se seca precisa de ser hidratada e pronto! Uma alternativa é a hidratação à base de língua. Segundo: a base, ou como uma amiga minha dizia "o estuque", serve para "aperfeiçoar", "arredondar", "idealizar" a pele de uma face onde se assume que já passaram mais uns quantos verões do que o desejado pela possuidora da mesma (face). As irregularidades, as rugas, as discromias, que fazer com elas? A base é, foi-me dito, fundamental onde por exemplo se compete profissionalmente com a data de nascimento afixada num cartão dia-a-dia. A base é afinal uma base de trabalho. Lamento, lamento, não discuto. Aceito o terrível uso profissional da mesma. Estranharia a sua presença na intimidade, e portanto consideraria a sua detecção uma má base... de diálogo. O tempo é uma vantagem que não se pode nem deve oculatr: quer apenas dizer que estou aqui mas não esquecer que antes já estive noutros lados de outros por ex. leitos. Terceiro: as sombras. Aqui perco-me nos comentários. Para que raio serve esta merda? Que desperdício de uma palavra! Quarto: o rímel. Tenho ideia de ser algo que se acumula nas pestanas. Para quê? E isso não vai atingir níveis tóxicos tecidulares e provocar a médio-prazo uma hecatombe levando à extinção natural do muro arbóreo que naturalmente deve guardar o rio dos olhos? Quinto: lápis. Para aprofundar os olhos. Quando esta característica deve existir em moderadas quantidades e variando ao longo dos dias. Os olhos podem - nem sempre conseguem, mas eis mais um dado a favor de alguma transparência... - tornar-se mais superficiais ou ganhar profundezas em segundos, eu vi, as pernas aí tremeram, sem lápis, sem uma palavra, sem texto decorado. O lápis servirá para sublinhar pelo próprio autor uma frase ou um capítulo que se queria realçar perante, eis mais uma desonestidade. O baton, que é o item seis. Concedo que é este adereço item incontornável nestas lides. Tenho um catálogo completo imagiológico de batons mal escolhidos. Outra: uma coisa que definirá uns lábios se fôr para lá chegar é o seu sabor, nascido da transição que o é entre a pele e uma mucosa, e mais não afirmo. Finos ou cheios, acompanham no seu desenho uma maneira de ser mas insisto, prová-los implica alguma nudez, que um baton habitualmente não é. Em situações emergentes vemo-nos portanto obrigados primeiro a comer o dito cujo e só depois a provar... o que pode dificultar escolhas, opções. Finalmente o blush, o número sete. Eu sei que andar a beliscar as maçãs do rosto (lembram-se deste chamar em desuso?)é até algo doloroso, mas também sei que a uniformidade da cor implica obrigatoriamente a linha isoeléctrica no que diz respeito aos estados de alma. Eu sei, o sexo não tem alma, dizem. Ou terá?
Dizem que a mulher é artifício. Eu quero (para mim) que a mulher seja sobretudo fogo.

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