segunda-feira, agosto 31, 2009

Das maravilhas (para uma Amiga)

Foi há dias, vi ao longe a tua irmã, parecia-me tu, foi uma surpresa. Mais alta, não encurvada, seca de feitio e formas, sempre a tua irmã foi por mim desenhada como os teus antípodas, residindo algures no Pacífico Sul das gentes. Um casamento, um filho e uma separação depois mantinha. Aliás construi toda uma interpretação sobre, este vazio pois de que não vou falar sobre estava cheio de considerandos em suave ascensão para um lado, em avalanche para o outro. Mas a tua irmã sorriu-me e abriu-se um pouco no branco do dela vossa face, de pequenas a confusão que consta. Afinal eras também ali tu a passar e sair da noite discreta, era um bocado de ti, e nela residirá portanto em quarto de trás toda a tua bondade e benfazer também talvez, não sei.
Saberei mais de ti hoje do que sabia antes.

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quarta-feira, julho 29, 2009

p.12

Repara naqueles jovens
Que ultrapassam.
Parece
Que os acompanham. Parece.
E o papel de parede, repara
Não parece ocultar nada de

Grave.
Lento, como só tu
Sabes, encetas a descida,

Roupa tão branca neles,
Sublinhadas as cores
A evitar.

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domingo, julho 19, 2009

p.11

Os teus mortos.
Essa tua tão enorme vantagem.

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p.10

Falemos da bastardia.
É verão neste como em
Outros castelos.
O calor incerto mas
Inclemente às vezes
Define.


Com a sua doença, abrindo
Os cofres, eles rodaram os
Pontos cardeais e rotinaram
O desequilíbrio.
Encontram-se medicados
Mas depois não se vão embora.
Tomados os selos,
Mudaram também a bandeira.


Adormeço. Acordo.
Constroem
demolindo.

E o sítio aperta.

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p.9

Sou o pai. E não esperes de mim centeio,
Trigo, aveia, o milho de ouro queimado.
Vês, nem é minha esta ordem.
Obedeço, só não te
Obedeço. Dizem:

Matarás!
Mas não: gentilmente, plantarei mil
Pequenas feridas e um corte
Maior. E da cicatriz criada será
Dito: sua era esta
Segunda intenção.

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quinta-feira, março 26, 2009

Fecho

Concedo ser
Cascalho, ou ainda
Menos.

Mas, se
Pisado, só
Por Deuses.

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Verónica em Idanha

A menina de branco
É o cordeiro sacrificial
De mais uma Primavera
E todos os anos há
Esta desilusão de não
Haver um vulcão
Nos campos de Idanha que
A possa receber.

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Entre Monfortinho e Zebreira

Chove, chove.
Se chove em Monsanto
Também chove aqui.

Prevejo um futuro
Selvagem.
À minha volta campos
De tiro: animais criados.

Tempo de mudar ao monte
O nome.

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quinta-feira, agosto 07, 2008

1993 A. C.

A troca dos dela trinta e uns quantos
pelos teus sessenta e oito, finalmente
atento meu Deus a todos os teus
pedidos, bem feitas as contas faltaria
tão pouco, e por pouco nos condenariam,
sendo o esquecer muito
próprio da idade,
virando coisas, livros e os
próprios elementos, café enquanto o
permitir "o médico", o sol não
- mas exclamando -
a dor da tua mão não medicada,
o lento trânsito dos últimos dias,
a moeda debaixo da língua
com quem trocaste.

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quinta-feira, junho 19, 2008

44 anos

Tem 44 anos, é grande, pesada. Pêlos a mais por quase todo o corpo, a face masculina. Começou a ouvir vozes pouco depois do começar da idade adulta. Tendo sido esta algo difícil de acontecer, outras duas irmãs também com internamentos psiquiátricos, agitações, violência. Os primeiros homens foram simpáticos com ela, quase que houve como que um agradecimento mútuo, tão difícil é às vezes este comércio da carne quando não remunerado, tão cheio de confusões, espetar de bandeiras. Ou de bandarilhas, assim se sentiu quando ficou grávida do filho, depois com o tempo uma alegria estranha, acabou por casar mas as coisas nunca correram bem, ele o pai da criança nunca aceitou aquela imposição de casa e filho e jantarinho, não lhe batia porque era dez centímetros mais baixo e pesaria menos dez-quinze quilos, bebia muito mas a coragem não acontecia, um dia disse “vou-me embora mas antes...” pegou numa faca, ela apanhou-lhe o pulso e mandou-o para o hospital com fractura do rádio, a partir daí o tribunal de menores quis tirar-lhe o filho, embora nos relatórios sempre aparecesse “filho não tem ar de descuidado, vai ao infantário, desenvolvimento normal para a idade, sem hx de violência, parece haver bom relacionamento com a mãe”. O médico nas urgências perguntou-lhe como tinha conseguido fracturar só o rádio, ela explicou, o pulso avançou, ela parou-o e depois foi só apertar e amassá-lo contra a parede da cozinha, apanhou um carregador de telemóvel no caminho, daí o esfacelo e a fractura localizada.
Até para as limpezas as mulheres não se querem tão feias daí a inconstância dos empregos, de vez em quando as vozes vinham depois iam embora, acabou por ganhar-lhes algum carinho, avisavam-na sobre maldades e na verdade à volta dela quem lhe queria bem, quem, a não ser o filho de seis anos, dizia o relatório que ficara mais estranha desde Janeiro e entre parêntesis punha: “(desde a separação do marido, que pediu o divórcio)”. Que estranho, não se percebe bem estas coisas, agora o marido diz que o (seu) filho estaria melhor com a nora, a irmã, verdade se diga que esta não está internada no Magalhães de Lemos há 3 anos, medida possível de estar melhor do que, mais capacitada, ela sim está internada neste preciso momento, ninguém lhe traz tabaco, não a deixam ver o filho, de certeza a irmã quer-lho tirar, ela não tem nenhum, é o que as vozes lhe dizem e elas raramente se enganam tem sim estado mais triste porque as vozes já não falam tão alto, os medicamentos funcionam como uma borracha de apagar e ela começa a sentir-se perdida, e vem um médico observá-la porque tem tosse e anda cansada e no fim diz “E deve deixar de fumar!” ao que ela responde que sim, porque não, “o meu filho diz-me também a mesma coisa...”.

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domingo, junho 15, 2008

Dia sim dia não

Estive há dias com um amigo meu mais velho, coitado, tem a mulher internada num hospital, doença grave. Sanguíneo, nervoso, conseguira após uma dura batalha com a instituição que a esposa, diminuída pela doença, fosse não para casa, onde ele não poderia atendê-la adequadamente, para um daqueles novos hospitais ditos “de retaguarda”, que é como quem diz: “ora põe este doente lá p’ra trás”. Adiantemos. Eu fiquei contente por ele, claro, e julgo que pela senhora em questão também, conhecia-a menos, fôra visitá-la só uma vez, não me tinha reconhecido o que nem me surpreendeu.
A conversa seguiu depois por outros caminhos, o meu amigo começou a comparar os hospitais, privados e públicos, deste país com os da África do Sul, esse país mitológico onde ele vivera já vai para mais de vinte anos, lá tudo era ideal, tudo perfeito, esta discussão já eu tinha perdido há muito ano, o meu amigo era pelo menos “sub-racista”. Viera para Portugal ainda Mandela estava na prisão, claro, o lamento foi porém não ter sido operado à próstata lá mas cá, não pelo resultado – tinha corrido bem, ainda mantinha potência e conseguia ter relações dia sim dia não – pelo resultado não mas pelo tratamento, pela lisura do manejo das questões monetárias e eu a pensar, primeiro, ó meu, afinal andas a foder quem, a mulher acamada no hospital, segundo, que aborrecimento o taxímetro, dia sim dia não, quem quer que seja a fêmea ter que estar atenta ao letreiro na porta: “hoje sim/ não hoje”…

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domingo, maio 25, 2008

Mamografia última Geração

Costa Cabral é uma rua confusa no que diz respeito aos sentidos, ao tráfico digo. Por questões profissionais tenho porém que a frequentar todos os dias com o meu automóvel. É uma rua de picos e vales de movimento, muito estacionamento supranumerário e muitas casas que vale a pena ver, extensão última de uma cidade que não há muitos anos acabava ali.
Reparei um destes dias numa zona de maior movimento no passeio poente, à porta do que parecia ser uma clínica médica. No dia seguinte mantinha-se o movimento constituido por mulheres, idades variáveis bem como as fisionomias, volumes e beleza. Num letreiro lateral a uma porta estes dizeres “Mamografia – Última Geração”, e logo por baixo “tirar ticket e esperar pf”. Fui pensativo para casa, ou melhor, intrigado; ou melhor ainda, dubidativo sobre este facto estranho de haver mulheres a fazer fila para um exame do qual, dentro do meu parco saber, tinha eu ideia de ser um pouco molesto e desconfortável, donde impopular. Entre sorrisos privados fui ao computador investigar, mas o Google respondeu-me apenas com últimos modelos de máquinas cuja função, método e resultados assumi que seriam similares às presumidas gerações anteriores da coisa.
Arrisquei: no dia seguinte, e após passar em Costa Cabral e constatar a mesma presença de uma mole feminina à porta da Clínica N. Sra. dos Prazeres, porta 78, r/c E, decidi perguntar a uma colega de emprego se ela tinha ouvido falar destas mamografias de última geração que especificamente ali, em Costa Cabral, estavam a causar furor...
A moça, aparentemente surpreendida pela pergunta, perguntou primeiro “onde, onde?” e depois “ah, não sei...” mas com tal divergir de cores e gestos que percebi logo que sim sabia do assunto em questão. No primeiro momento livre liguei para a tal clínica.
A pedido de uma esposa inexistente, disse, pretendia marcar o referido exame, o tal exame, o mistério que afinal, dentro de uma lógica Lyncheana sempre surgia à esquina na mais banal das ruas, Costa Cabral para o caso. Liguei, e a rapariga que atendeu primeiro fez-me especificar uma e outra vez que queria a mamografia, “mas última geração”! Que sim, que sim, caramba e já agora porque se chamava assim, última geração? Não obtive resposta. Insistiu bastante em obter o contacto da minha esposa, o qual dei, imaginário. Consegui porém que me enviasse um folheto de instruções para “casa”, pois segundo a rapariga “é um exame que requer algum tempo e é um pouco diferente do habitual – mas a sua esposa já deve saber!”. Se sabia não me tinha contado, para além de não existir, o que dificultava qualquer diálogo entre os dois.

Dois dias depois chegou-me o folheto a casa – o que só mostra afinal descuido pois não tinham confirmado o nº de telemóvel – inexistente - que tinha dado.
Rezava assim:

“Exma Sra.:
Mamografia é uma palavra composta de dois termos, ambos com origem no latim. O exame radiológico que recebe este nome é um visão reduccionista da temática em questaõ. A ideia subjacente é a construção de “um desenho, uma imagem” compreensiva de uma parte do corpo feminino cujo nome reside paredes meias, dentro mas também fora da raiz da maternidade. A mamografia convencional desenha em Rx uma imagem em negativo da glândula mamária e de algum do tecido envolvente. Julgamos portanto ser esta imagem redutora do que é o peito feminino. Assim, nos próximos três dias, em três sessões de quarenta minutos e com ajuda nos nossos reputados técnicos em mamografismo, vamos poder caracterizar os seus seios no que diz respeito a uma infinidade de aspectos, que a posteriori serão explicitados num relatório detalhado e resumidos em três índices segundo a famosa escala de Curitiba-Ceará, 3ª versão simplificada: os seus seios, direito e esquerdo, vão ser classificados de um a dez no que diz respeito a -

a) agudeza
b) persistência
c) subtracção


Qualquer pontuação inferior a sete em um destes itens merecerá um mês grátis dos nossos produtos dirigidos para a resolução dos problemas diagnosticados por este exame.
Como extras tem direito a uma mamografia/ecografia clássicas bem como à frequência de um mini-curso sobre saúde mamilar.

P.S.: o técnico Ricardinho não está ao serviço por subluxação da 1ª interfalângica do indicador esquerdo. Pelo facto pedimos as nossas desculpas.”

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segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Autotransplante

para a SM

Como posso eu resolver
Este problema que eu tenho?
Como pode parte de mim
Fazer o difícil trabalho,
Resolver a custosa equação?

Eu li: é retirada a seiva
E corrigida, em mim afinal
Nada nunca houve que não
Obrigasse a correcção.
Depois devolvem-ma, o relógio
Pára, Jerusalém preparada e é
Domingo de Ramos um dia qualquer.

Nem uma palavra, que não se
Assuste a transfusão. E o meu
Silêncio vai derrubar estes
Muros, meses, para
Sempre.

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Clavícula

Suspendes o que separas.
Varandas, duas.
Num dicionário musical
Esta referência: "pequena chave".
Tocas e abre-se um
Cofre, portadas.
E porque tens esses braços todos,

Amarras.

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quarta-feira, dezembro 05, 2007

Na Minha Rua Passam

Na minha rua passam
Bons carros, é zona de
Restaurantes, vai este mês
Quase no seu fim, as doses
Abundantes, é o que
Dizem os estrangeiros,
Trinta e um dias nem um
Tratamento feito, vozes
Amigas por atacado, mas
Tão longe, são como carros de
Excelente mecânica, noutra rua
Notar-se-ia menos a
Embraiagem a sangrar, as
Luzes à esquerda.


2004.

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Cálculo

Catarina, ensina-me a remover o cálculo.

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Reis 2003

Era noite já madura, custava o domínio de uma bicicleta
De criança por entre a chuva escassa. Outros pais, outros
Reis serventes, talhavam sob papéis de embrulho os
Presentes da seguinte manhã na mesma rua. A restante
Coruña dormia com o sabor de caramelos ainda na boca,
Ainda ontem vi havia aqui crianças, dos Reis/Sábios Magos
Dois eram mulheres, com nome uma a outra "senegalesa
Trabajando en una onegê". E esta onegê a que pertenço
Tropensativo tem uma criança a dormir com Baltasar, uma
Mulher em lavores de ocultação, e eu, que nem sei andar
De bicicleta.

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sexta-feira, novembro 30, 2007

O exagero no agradecer
É como uma recusa.

Não agradeças, serve-te
Generosamente.

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quarta-feira, novembro 28, 2007

Desquite

Saíste-me em sonhos, pauzinho mais curto. Podia ter aproveitado para te agradecer algumas coisas, aquelas que já são história hoje mas não, vinhas acompanhada pelo marreco do costume, o homem do ombro inquieto. E rias. Levei anos a compreender esse rir que tu tens. O gostar dele, pelo contrário, foi imediato. E não interpreto - mas verifico - que nem no meu sonho o momento será hoje para rir. E que hoje como ontem, o teu rir é como um sintoma de uma doença por definir, as causas possíveis pequena lista, a terapêutica um insucesso. E lembraste-me o Ricardo Quaresma, mas sem a finta.

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quinta-feira, novembro 15, 2007

Contrapulsação

É longamente devida esta ajuda.
Gastei o coração, não interessa
Como nem onde. Está gasto.
Curiosa a escolha, entra-
-Se pela virilha.
Sobe uma distância certa,
Parasita benigno.
O sangue em torvelinho
Pára, fazendo-o abraçar
O coração coronário.
Como quem pede a um amante
Um pouco de sono, de descanso.

E dizem que é possível um
Coração novo.

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