domingo, maio 25, 2008

Mamografia última Geração

Costa Cabral é uma rua confusa no que diz respeito aos sentidos, ao tráfico digo. Por questões profissionais tenho porém que a frequentar todos os dias com o meu automóvel. É uma rua de picos e vales de movimento, muito estacionamento supranumerário e muitas casas que vale a pena ver, extensão última de uma cidade que não há muitos anos acabava ali.
Reparei um destes dias numa zona de maior movimento no passeio poente, à porta do que parecia ser uma clínica médica. No dia seguinte mantinha-se o movimento constituido por mulheres, idades variáveis bem como as fisionomias, volumes e beleza. Num letreiro lateral a uma porta estes dizeres “Mamografia – Última Geração”, e logo por baixo “tirar ticket e esperar pf”. Fui pensativo para casa, ou melhor, intrigado; ou melhor ainda, dubidativo sobre este facto estranho de haver mulheres a fazer fila para um exame do qual, dentro do meu parco saber, tinha eu ideia de ser um pouco molesto e desconfortável, donde impopular. Entre sorrisos privados fui ao computador investigar, mas o Google respondeu-me apenas com últimos modelos de máquinas cuja função, método e resultados assumi que seriam similares às presumidas gerações anteriores da coisa.
Arrisquei: no dia seguinte, e após passar em Costa Cabral e constatar a mesma presença de uma mole feminina à porta da Clínica N. Sra. dos Prazeres, porta 78, r/c E, decidi perguntar a uma colega de emprego se ela tinha ouvido falar destas mamografias de última geração que especificamente ali, em Costa Cabral, estavam a causar furor...
A moça, aparentemente surpreendida pela pergunta, perguntou primeiro “onde, onde?” e depois “ah, não sei...” mas com tal divergir de cores e gestos que percebi logo que sim sabia do assunto em questão. No primeiro momento livre liguei para a tal clínica.
A pedido de uma esposa inexistente, disse, pretendia marcar o referido exame, o tal exame, o mistério que afinal, dentro de uma lógica Lyncheana sempre surgia à esquina na mais banal das ruas, Costa Cabral para o caso. Liguei, e a rapariga que atendeu primeiro fez-me especificar uma e outra vez que queria a mamografia, “mas última geração”! Que sim, que sim, caramba e já agora porque se chamava assim, última geração? Não obtive resposta. Insistiu bastante em obter o contacto da minha esposa, o qual dei, imaginário. Consegui porém que me enviasse um folheto de instruções para “casa”, pois segundo a rapariga “é um exame que requer algum tempo e é um pouco diferente do habitual – mas a sua esposa já deve saber!”. Se sabia não me tinha contado, para além de não existir, o que dificultava qualquer diálogo entre os dois.

Dois dias depois chegou-me o folheto a casa – o que só mostra afinal descuido pois não tinham confirmado o nº de telemóvel – inexistente - que tinha dado.
Rezava assim:

“Exma Sra.:
Mamografia é uma palavra composta de dois termos, ambos com origem no latim. O exame radiológico que recebe este nome é um visão reduccionista da temática em questaõ. A ideia subjacente é a construção de “um desenho, uma imagem” compreensiva de uma parte do corpo feminino cujo nome reside paredes meias, dentro mas também fora da raiz da maternidade. A mamografia convencional desenha em Rx uma imagem em negativo da glândula mamária e de algum do tecido envolvente. Julgamos portanto ser esta imagem redutora do que é o peito feminino. Assim, nos próximos três dias, em três sessões de quarenta minutos e com ajuda nos nossos reputados técnicos em mamografismo, vamos poder caracterizar os seus seios no que diz respeito a uma infinidade de aspectos, que a posteriori serão explicitados num relatório detalhado e resumidos em três índices segundo a famosa escala de Curitiba-Ceará, 3ª versão simplificada: os seus seios, direito e esquerdo, vão ser classificados de um a dez no que diz respeito a -

a) agudeza
b) persistência
c) subtracção


Qualquer pontuação inferior a sete em um destes itens merecerá um mês grátis dos nossos produtos dirigidos para a resolução dos problemas diagnosticados por este exame.
Como extras tem direito a uma mamografia/ecografia clássicas bem como à frequência de um mini-curso sobre saúde mamilar.

P.S.: o técnico Ricardinho não está ao serviço por subluxação da 1ª interfalângica do indicador esquerdo. Pelo facto pedimos as nossas desculpas.”

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2 Comments:

Blogger Sr Blas said...

Jojojojoojojo

2:15 da tarde  
Blogger waterlilly said...

Surreal...

6:32 da tarde  

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