sábado, fevereiro 26, 2011

Fumador passivo.

Devo ser um bom fumador passivo.


Aproveito desde já para esclarecer que na realidade não fumo. Ocasional usuário dos prazeres do tabaco, ocasional e amador, incapaz de uma travadela capaz ou de habilidades circenses com o exalado, após uma pequena intercorrência enfermiça em 2004 deixei-me destas coisas, até há aproximadamente um ano. De então para cá vou no terceiro maço, estão a ver o ritmo.

Dizia eu que devo ser um bom fumador passivo. A frase favorita que levo quando me vêem é: ”Anda ali fumar um cigarro comigo!” E eu vou! Falamos da profissão que temos e das merdas que nos vendem para melhorar a mesma. De carros, de pais doentes, de filhos, do tempo que vai fazer e do tempo que nos falta. De “tu como estás” e que “eu também acho”. Sai sempre uma anedota e depois dois dedos da vida puta. Sou um bom fumador passivo.

E também há quem goste de tomar um café comigo. Aqui partilho o prazer, o pequeno shot de energia, puro placebo, magia negra. Um café serve para interromper, criar uma suspensão num tempo habitualmente, hoje, escravo. Ali, em pause/stop, aparelhagem a piscar, eu e o meu amigo/a, cumprimos o amável ritual de fornecer lenha aos velhos fornos crematórios onde nos queimam ao fazer-nos viver como vivemos, escravos. Mas, sempre há um rir, sempre há uma cumplicidade que reacende o segredo que só naquele momento sabemos os dois, que o queimar é lento e, nós, grande gente, ainda temos muito para queimar, mal sabem eles... E quem diz um café diz um copo, um jantar, evento que tem sido menos do que ocasional et pour cause, mas não importa.

E tudo isto nos traz embrulhadinhos à palavra de que se fala: “Projecto, de como tê-lo dois ou três aspectos a ter em conta”. Eu tenho um, e a ele vou continuar a dedicar os meus dias: ser um bom fumador passivo. E boa companhia de café, de um bom copo, de um bom jantar. Que bom projecto, este…