domingo, março 13, 2005

E então para onde vamos ?

É de manhã. Como sobreviveríamos sem a TSF ? Ao acordar tem sempre a sensação de ter acordado para um novo mundo. Os passos que dá, sempre se fazem anteceder de uma hesitação, como se a gravidade tivesse descido uns pontos entre ontem e hoje, ou o planeta fosse diferente. Reaprende-se a cozinha, o banho, os telhados em frente. A janela que embacia mais do que as outras, sabe-se lá porquê.
E no trânsito pensa-se o mesmo: afinal é assim viver neste mundo. A TSF dá as restantes explicações. O Polo alugado era como uma nave espacial fretada, havia sempre um ou dois truques ainda não conhecidos, o orientar dos reflectores, por ex., obrigando a manobras cervicais dolorosas, porque era uma fila confusa de carros em guerrilha surda, e já era tarde. Ao fundo, à direita, o sujo hospital.
Com o sinal fechado, no lugar do morto uma agenda dos afazeres, nomes e nomes para visitar. Abriu o sinal, apitaram, seguir e rodear para a esquerda, estacionar em parque pago pela companhia. Ao menos esta regalia ainda não lha tinham tirado. Eram nove da manhã, o hospital estava ali, à sua frente, já limpo da bruma da manhã, e parecia-lhe um maremoto, uma imensa montanha de algo contendo em si um número não determinado de mortos, ou pessoas em vias de sê-lo. Outra profissão seria benvinda. Suspirou e atravessou no verde.
Enquanto subia em passo moderado a rampa para o piso 2 de acesso pensou que, vista do ar, esta rampa explicaria porque, àquela hora, o hospital parecia atrair tanta gente, e tão diversa. A rampa, com uma subida e uma descida, tinha a forma de um íman. E assim doentes, familiares, fornecedores, crianças a vender pensos, médicos, enfermeiros, gestores, e muita mais gente bichanavam o seu caminho, quase todos para entrar, uns poucos saindo de uma noite bem ou mal passada. As batas, os casacos, as fardas, os gessos, tudo sinais de identificação tribal. Nem na “Guerra das Estrelas”. Entrou, à direita o banco. Ao contrário de todos os colegas que conhecia, achava prático ter uma conta naquele banco. Á esquerda onde comprar o jornal, tomar um café. Uma menina cigana vendia pensos. A vigiá-la à porta a irmã, grávida.
“Bom Dia, Mercitani, Alexandre Gomes” “Bom Dia” E um crachat de acesso. Bom, tinha que entrar, e entrou. A administração acabara de fazer obras. “Com o meu dinheiro”, pensou. E sentiu-se um pouco revolucionário, ao pensar assim. Suspirou, e começou a subir escadas.

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