quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Eu, funcionário público, me confesso.


Não sei se amanhã trabalho, não sei. E todos os dias é assim. E todas as noites, sem horário. Porque assim adormeço, em interrogação, os joelhos encolhidos, os pés aquecidos pelo mundo do dia passado. Em que trabalhei. Trabalho que não é meu mas sim um que me emprestaram. Durante o dia, e habitualmente cedo, descubro se vai haver o que fazer. Chegam-me as tuas mensagens, rainha minha e do meu reino. Porque eu sou o ourives da rainha. Ela não é mais rainha para ninguém do que para mim. Embora todo um reino seja seu e eu o grão mais humilde e escondido de esta terra toda. Desenho, modelo e dou forma a sonhos que não são meus. Crio as mais altas temperaturas para que pulseiras, anéis, fios, correntes, tiaras sublinhem o que é bem sabido, nunca houve uma rainha assim. Já fiz de tudo e tudo fiz porque com um sorriso me foi pedido. Um sorriso que raramente o vi, um pequeno desmanchar de rir, duas, três palavras em cascata mas como para dentro ditas, coisas que não ouço mas adivinho quando me chega o bilhete com a letra de quem me tem seguro mas de incerto trabalho ao longo dos dias.

Ser rainha implica muitos deveres, solicitações, dias há em que, cativa ela, não se lembra deste que é seu cativo. Sou um segredo de estado. Antes de mim já morreram, envenado um, o outro caiu de uma grande altura, dois ourives reais, com o objectivo de dobrar o coração de quem reina e decide. Morreram homens, a mulher seguiu o seu caminho. Ninguém sabe quem eu sou.  Peço à porta da mesquita ou às portas da cidade, ajudo a descarregar os carros no mercado. Num dia posso estar a descarregar um caixote de laranjas da Andaluzia, tocam-me no ombro, deixam-me um bilhete dobrado, um bilhete sonoro pois adivinho a fala enquanto o escrevia: “faz-me uma pulseira feliz!”.
Portanto, posso dizer que tenho ao mesmo tempo o melhor e o mais incerto e melancólico dos trabalhos. Peço esmola, como restos, carrego fardos. Não sei quando poderei tomar o próximo banho. Estes dias têm sido de muito frio, tormenta, vento agreste. As folhas das árvores são uma distante lembrança, o rio que trespassa o rossio fora das muralhas já inundou algumas casas. Uma coisa eu sei: há dias, gloriosos dias, em que o sol de uma rainha - de inverno será, mas sol - está a ser modelado, melhorado, pelas minhas mãos.

1 Comments:

Blogger Catarina Marcos said...

A quem te referes?

3:26 da tarde  

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